segunda-feira, 29 de novembro de 2010

RÓDTCHENKO E MAIAKÓVSKI NO INSTITUTO MOREIRA SALLES

Ródtchenko e sua mulher Varvara Stiepânova

Os trabalhos de Ródtchenko expostos no Instituto Moreira Salles, por si mesmos já altamente instigantes, crescem ainda em interesse quando se conhece o contexto em que foram produzidos: o período da virada russa do Construtivismo, nas décadas de dez e 20 do século passado, pouco antes e pouco depois da Revolução de Outubro de 1917.
Foi o momento em que uma geração de artistas renovadores, experimentais, que viviam também uma revolução nos costumes, criou uma arte de vanguarda, identificada com as mudanças sociais.
Vimos aqui no Rio, ano passado, no CCBB, a mostra “Virada russa,” com as obras de muitos desses artistas. Um destaque: o grande Kazimir Malievitch, que pertenceu a uma ala do Construtivismo designada como “estética”. Já Ródtchenko fica na ala do Construtivismo dito “ideológico”, junto com Vladimir Tátlin.

Cartaz de Ródtchenko

Rodtchenko foi pintor importante mas, dominado por sua característica inquietação e busca do novo, deixou a pintura pela fotografia, fotomontagem, colagens, cartazes – o material que agora o Instituto Moreira Salles expõe.
O brilho da arte russa desse período se apaga com a consolidação do regime de Josef Stalin.
Stalin subiu ao poder em 1922, mas o endurecimento da sua política se faria sentir com mais peso na década de 30. No primeiro congresso de escritores comunistas, em 1934, o Realismo Socialista foi decretado arte oficial.
Enfrentando obstáculos e desprestígio, muitos artistas da vanguarda russa deixaram a então União Soviética. Os que ficaram, como omo o prteriores deixaram a entrda das distas, em 1934, o Realismo Socialista foi decretado a forma de arte oficial.
Rodtchenko e Maliévitch, foram discriminados e desprestigiados.
Rodtchenko é um grande pioneiro da fotografia. Inventou planos originais, angulares. Gostava de fotografar de baixo para cima, ou vice versa.
E traz para nós, agora, no Moreira Salles, com seu olhar original, uma Moscou que a passagem do tempo torna inesperadamente poética – o balé, o circo, os grandes desfiles, os esportes, o povo nas ruas, os prédios dos grandes jornais.

SOBRE FOTOGRAFIA

(Frases de um texto escrito por Ródtchenko em 31 de outubro de 1934, para a revista “Soviétskoe Foto” – “A Fotografia Soviética”)

Uma fotografia feita por Ródtchenko

A fotografia deixou de ser secundária e de imitar técnicas de gravura, pintura ou tapeçaria. Ao encontrar caminho próprio, ela floresce, e o vento fresco traz um perfume peculiar à fotografia. Novas possibilidades se descortinam.
Os contrastes das perspectivas. Os contrastes da luz. Os contrastes da forma. Pontos de vista impossíveis no desenho ou na pintura. Pontos de vista com encurtamentos exagerados e a impiedosa textura do material.
Momentos inéditos de movimento, gente, animais, carros.
Momentos antes desconhecidos ou, se conhecidos, certamente despercebidos, como o voo de uma bala.
Composições que ultrapassam, em ousadia, a imaginação dos pintores. Tão carregadas de formas que Rubens fica para trás. Com padrões tão intrincados que japoneses ou holandeses não têm mais nada a dizer.
Depois vem a criação de momentos fotográficos inexistentes, por meio da montagem.
A fotografia se desenvolve rapidamente e conquista todos os campos.
É preciso incentivar o amor pela fotografia, para que as fotos sejam colecionadas, para que se criem fototecas e aconteçam exposições fotográficas em grande escala.
Precisamos publicar livros e revistas de fotografia. A fotografia tem todo o direito.
Merece atenção, respeito e reconhecimento como a arte de hoje.
...
Desfile em Moscou, foto de Ródtchenko

OS OLHOS DE MAIAKÓVSKI

SONIA COUTINHO

“Morrer não é difícil. Difícil é a vida e seu ofício.”
Maiakóvski

Estou na exposição de Aleksandr Ródtchenko. Fotografias, colagens, capas de livros.
Na sala com fotos que ele tirou de seus parentes e amigos, levo um susto.
Ah, eu me lembro! Vivi ali, naquele tempo. Sim, na Rússia, um pouco antes e um pouco depois da Revolução de Outubro.
E convivi com essas pessoas.
Vejo as fotos com os rostos tão familiares do próprio Ródtchenko e de sua mulher, Varvara Stiepânova. E aqui estão as do crítico de arte Óssip Brik e da mulher dele, Lilia.
Agora, paro diante das fotografias de Vladimir Maiakovski. Seu rosto belo, intenso e sombrio, um rosto de louco, talvez, está voltado para diretamente para mim, num reconhecimento.
O que foi feito de você, Nora? Ouço-o perguntar.
Por que me chama assim?
Que sensação estranha! O que era Maiakóvski para mim? Um irmão, amigo, amante?
Os olhos dele me sugam, me arrastam.
Segundos depois, verifico que continuo aqui, numa sala do Instituto, mas em que outra dimensão?
Ouço um leve ruído, percebo que há alguém atrás de mim. E me viro bruscamente, esperando deparar-me com Vladimir.
Mas não é ele, e sim Lilia Brik.
Por que sinto tanto ciúme dela? Lilia não é propriamente bonita. Mas tem rosto doce, agradável, muito feminino. E um corpo bem modelado.
Todos diziam que ela era o grande amor de Vladimir Maiakovski.
Ela me toma pelo braço e me conduz para a área externa do Instituto.
No caminho, passamos por uma parede de espelho, no corredor – e me vejo, de relance. Minha imagem não é mais a de Sonia Coutinho.
Sou outra mulher, que identifico de repente.
Sim, Nora Polonskaia, atriz, casada.
Uma das três mulheres da vida de Vladimir. A outra era uma russa branca, Tatiana Iacovleva, que morava em Paris e a quem ele dedicou um poema.
Lilia Brik me puxa pelo braço, agora, com uma raiva mal disfarçada, para que eu me afaste do espelho e continue a andar com ela.
Lembro de tudo, cada vez mais claramente. Aos 22 anos, tive um caso com Maiakovski.
Mas ele se suicidou, continuo a lembrar, agora cheia de dor, enquanto eu e Lilia seguimos para a piscina da bela casa onde funciona o Instituto.
Ah, sim! Fui eu quem passou com Vladimir sua última noite vivo.
Eu e Lilia nos sentamos a uma das mesas em torno da piscina. Em frente, um painel de azulejos de Portinari. Adiante, o oceano de mata que cerca e invade o Rio.
Ainda é cedo, este lugar está vazio, não há ninguém, nas outras mesas, que pudesse estranhar nossas roupas de época e a conversa em russo.
Lilia me diz:
- O que você está fazendo aqui? Por que voltou? Era a mim que ele amava, não a você. O tempo inteiro, era a mim que ele amava. Infelizmente, quando Vladimir morreu, eu estava em Londres, com Óssip. Se estivesse em Moscou, quem sabe impediria que se suicidasse. Já tinha impedido duas vezes, antes.
- Claro, você estava com Óssip. Não quis deixa-lo para ficar com Vladimir, como ele lhe pediu. Ele me contou que queria casar-se com você – cheia de espanto, ouço a mim mesma responder.
Faço uma pausa, mas continuo:
- Você sempre o colocou em segundo plano. E, quando me conheceu, foi a mim que ele passou a amar. Vladimir também me pediu em casamento. Mas fui fraca, tive medo. Tinha medo até de que alguém descobrisse meu caso com ele. Ah, eu queria aceitar seu pedido, devia ter aceito, mas não tive coragem. Tinha uma boa situação, com meu marido. Vladimir era sedutor, mas tão instável. Quem podia adivinhar o que ele faria no dia seguinte?
Lilia me olha com raiva crescente.
- Nunca senti ciúmes de você, como não sentia de Tatiana Iácovleva. Dizem que ele também a pediu em casamento. Mas era tudo para tentar fugir de mim. Era a mim que Vladimir queria. Mas eu não conseguiria separar-me de Óssip. Quando o conheci, eu tinha 13 anos. Nosso relacionamento não era o de um homem e uma mulher, ia muito além disso. Óssip não tinha ciúmes de mim. Vladimir, sim. Óssip sabia que eu nunca o deixaria.
...
Da esquerda para a direita, Óssip, Lilia e Maiakóvski

- Vocês três vivendo juntos, na mesma casa, um ménage à trois que causou algum escândalo, mesmo na Moscou liberada da moral burguesa.
- Não houve ménage à trois. Quando me tornei a mulher de Vladimir, deixei de ser a mulher de Óssip, continuamos apenas irmãos.
- Lilia, você pode tentar enganar a quem quiser, a mim não engana. Você e sua irmã, Elsa Triolet, sempre foram umas coquetes, mulheres fáceis, que ostentavam um verniz de cultura apenas para seduzir os intelectuais e artistas e viver livremente no meio deles, dormindo com quem quisessem.
- Elsa se casou com Aragon e ela o amava – responde Lilia, ofendida. - Polonskaia, eu não tive ciúmes de você, mas uma coisa não lhe perdôo. Você passou a noite com Vladimir e o abandonou na hora da sua morte.
- Eu já tinha saído do quarto, quando ouvi o tiro. Estava no corredor daquele maldito prédio da Travessa Lubiánski. Sabia que não adiantava voltar, estava tudo encerrado. Já antes, vez por outra, ele falava em suicídio. O revólver só tinha uma bala, mas ela se alojou bem em seu coração. Vladimir deve ter ensaiado muitas vezes aquele gesto final. Seu bilhete de despedida talvez tenha sido escrito com antecipação. “Como se diz, o caso está encerrado. Estou quite com a vida.” Mais ou menos isso. Não voltei ao quarto, não queria que ninguém soubesse do nosso caso. Só mais tarde me contaram os detalhes. Eu era tão jovem, tinha apenas 23 anos. E ele 36. O suicídio de Vladimir acabou para sempre com a minha felicidade.
- Ele parecia disposto a atender ao chamado de outro suicida, o poeta Iessenin: “Até logo, até logo companheiro,/Guardo-te no meu peito e te asseguro:/O nosso afastamento passageiro/É sinal de um encontro no futuro.”
Lilia se cala, ficamos ambas em silêncio. De dentro do Instituto vem uma voz de homem que grita o nome dela. Eu a reconheço, é a voz de Vladimir.
Ela se levanta e vai correndo para dentro.
Fico sentada por mais alguns instantes, olhando a piscina. Depois também sigo para dentro. Ao passar pela parede espelho, no corredor, é Sonia Coutinho quem devolve meu olhar, no Rio de Janeiro, no final do ano de 2010.
Estou meio zonza, antes de voltar para casa decido tomar um café no restaurante do Instituto.
Peço um expresso pingado, acompanhado de uma deliciosa bolinha de chocolate com pequenas abas, parecendo um chapéu.
Depois, vou até o estacionamento, entro em meu carro, dirijo de volta para meu apartamento, onde abro o catálogo da exposição, que comprei.
Torno a examinar as fotos tiradas por Rodtchenko. Detenho-me em Maiakovski.
Os olhos dele se encontram com os meus e ainda me chamam, mas agora resisto.
Vou ler tudo o que puder a respeito dele, decido. E quero saber sobre os anos finais da vida de Lilia Brik. Sobre o casamento dela, depois da morte de Óssip, com V. Katanian, o biógrafo de Maiakovski.
E sobre o suicídio da própria Lilia, aos 86 anos.
De noite, sem conseguir dormir, leio em voz alta, para mim mesma, poemas de Maiakovski traduzidos por Augusto e Haroldo de Campos.

CADERNO DE POESIA

LÚCIO AUTRAN

Lúcio em Barcelona

AZUL

Uma bolha azul
(gelatina
água?)
membrana intangível

Queria afogar a todos
em silêncio
em assepsia
em dias inodoros

A todos tingia
de azul
os homens.
Sem paz contudo

Bolha: azul
de anomia,
impediu a noite
que prometia.

Todavia o dia não devolveu
(mas a face dupla do nada)
Nem era líquido. (Na verdade
havia esperança de um rio

que se rompesse, à cidade lavando,
levando a todos em redemunho)

Não era rio
não era líquido...

era um tempo gelatinoso nos retendo em azul

e paralisia.


VENEZA, LÍNGUA SUBMERSA
(o pesadelo do tempo e o exílio)

Após Mallarmé
um copo de dados
uma copa de dias
um náufrago bienal

Por que
rumei
ao exílio
voluntário?
Porque vi

iluminado
sob um prisma de vidro
e aço:
um copo
de sangue.

(O autor
esperava aplausos
orgulhoso
de seu copo
e de seu sangue)

É esta a língua
do meu tempo?
Lorca! Lorca! Gritei.
(Era só fio de esperança
lembrança de uns versos
não um prenúncio de estética)

“¡Oh sangre dura de Ignácio!
¡Oh ruiseñor de sus venas!
No.
¡Que no quiero verla!
Que no hay cáliz que la contega”

Gritei mesmo por Neruda, poeta
que nem desnuda minhas veias,
secas e vazias: “un plato para el obispo,
un plato de sangre de Almería. Un plato negro,
un plato de sangre de Almería. Un plato destrozado,
desbordado, sucio de sangre pobre”

Era vão:
demais sonoridade
não estaria ali.
Não queria mais ver.
Silenciei para sempre.

Tudo aconselhava a mudez
forma possível
frente à clausura
daquela forma surda.
Caminhei e calei:

Clausura.
Queria apenas sonhar
e acordar com palavras
(inevitável e seminal poesia)
Era minha, a clausura.

Ao exílio voluntário, pois.
Nada a falar ou ouvir.
Não há mais silêncio
(há só silêncio, de uma estridência
que corta a cicatriz da forma)

Perdi a voz na fala dos homens,
via ali senão e apenas
um copo, um signo vazio:
nada é signo, mensagem
tout signe est message?

um copo
em estado de dicionário:
“do latim poculum
vaso para beber
(ou nem isso)

ordinariamente sem asas”
O que lhe dava ares
de falsa ave, vôo nenhum,
composição galiforme
um copo

“Com que os jogadores
de dados
os lançam jogando”
un coup de dés
jogo perdido.

Impossíveis dados
num copo de sangue
SOIT
que
l’Abîme

(que se abriu entre mim
e o gesto
e a língua dos homens)
plane désespérément
era o vácuo sob mim
Caía
por ver esfacelado o piso
do simbólico.
A estética possível.
Cada vez mais só.

Resistira até então
não por reação,
mas por tragédia
de cette conflagration
de l’horizont unanime

Como conflagrar
reagir
à unanimidade ?
Estamos sós, cada vez mais
sós

Como o albatroz
de Charles:
Exilé sur le sol
au milieu
des huées

Ainsi que le fantôme d’un geste
que não é meu
(não me simplifiquem,
o sangue? apenas o acho ridículo
mais do que um copo vazio)

N’ABOLIRA
a ebulição que enlouquece
a abolição
das palavras
do verso pouco que me resta

Estas palavras
dans quelque proche tourbillon d’hilarité et d’horreur
que garimpo na vocação da voz e do silêncio,
onde germinam
à surdez condenadas

Os olhos cansados da voz dos homens
me deparei
com essa língua
que nem do silêncio é digna
une stature mignonne ténébreuse de um copo inútil,

porque cheio de sangue.
Sangue de quem pensava
que isso aboliria
LE HASARD.
Inútil

Toute Pensée émete
un Coup
de
Dés
Maldita poesia

Un coup de dés
n’abolirá
jamais
le hasard.
Maldita poesia

Num copo de sangue
se abriu entre mim
e a língua dos homens
o silêncio.
Maldita poesia
E o sangue...
o sangue
.
.
.

Coagulou-se
.
.
.
como as idéias
.
.
.
Uma cicatriz
sobre a pele

da estética.

Lúcio Autran estreou em 1985, com o livro “O piloto Antônio”. Tem um total de seis livros de poesia publicados, sendo o mais recente “Centro.” Figurou em antologias poéticas. Muito ligado às artes visuais, Lúcio preparou vários catálogos para exposições. Os poemas aqui postados integram o livro "Fragmentos de sonhos e outros ciclos menores", a sair.


NARLAN MATOS TEIXEIRA

Narlan na frente do famoso Café Vesúvio, em San Francisco, onde se reuniam os Beatnicks.


VERSOS ENCANTADOS DESDE LA HABANA

Eu cometo versos
Como quem caminha de madrugada por uma calle de la Habana
e avista sobre um muro debruçadas magnólias
materializadas como se fossem estrelas do mar
ao seu redor ramas verdes lhe guardam da escuridão
outras flores brancas caladas as observam

eu cometo versos
como quem dedilha uma guitarra cigana na Plaza de España em Sevilla
numa tarde onde uma árvore toureia o vento lento
e uma dançarina de flamenco desenha pássaros com seus gestos
(sob sua sombra fresca dorme a poesia)

eu cometo versos
como quem lê Florbela Espanca numa quinta de Lisboa
repousado entre o branco marfim da cidade e o vermelho do sol
na mesa de uma taberna ao lado de uma garrafa de vinho tinto
descubro e me enamoro da musa e da brisa e do sal do mar
ao longe a praia aguarda pelos marinheiros que nunca se foram

eu cometo versos
como uma ilha chilena atenta à espera de um náufrago
como colheres de prata ao sol matinal de Madrid
a desconfiança da liberdade ante um campo florido
como quem vê com alma e por isso não precisa mais dos olhos

Eu cometo versos
Como quem nasce de repente como quem avista a Andaluzia
Como quem brinca com a luz sobre a pele das coisas
Como o vento cochichando com o porto e com as velas brancas
Como quem busca sereias e tesouros em mares perdidos

Eu cometo versos
Como amantes ensandecidos pela beleza ardem numa tarde de Andorra
Como os suicidas que partirão ao amanhecer na carruagem do indizível
Sem cartas nem bilhetes suicida

Eu cometo versos
Como quem comete um crime e aguarda pelo castigo dos deuses.

Nascido em Itaquara, no interior da Bahia, Narlan ensina atualmente na Universidade do Illinois, em Urbana-Champaign, onde também está concluindo seu Doutourado.
Ele obteve o título de Mestre na Universidade do Novo México, com dissertação sobre a Tropicália.Em suas andanças pelo mundo, Narlan conquistou amigos e admiradores na Eslovênia, conheceu os beatniks Lawrence Ferlinghetti e Robert Creeley e participou de uma oficina literária com Derek Walcott, Nobel em 1963. Last but not least, Narlan foi admirador e amigo de Waly Salomão, que o incentivava muito. O poema aqui postado já figurou no famoso blog Madame K, da poeta e jornalista Kátia Borges.


HENRIQUE WAGNER

EM MEMÓRIA DE ILDÁSIO TAVARES
Ildásio Tavares

A VOLTA PARA CASA

De costas para o mar, voltamos à terra,
com seus telefones, carros e postes em movimento.
O corpo se pondo, resolve, provisoriamente,
nossa elegante superfície. Voltamos estupidamente mais vivos,
os olhos cheios d’água, como se quiséssemos afogar,
com toda a segurança de um mar antigo, nossa vista
de sobre o precipício dos ombros de nossos desassossegos.
Voltamos. O corpo buliçoso e cansado dos que lamentam,
praguejam, resolvem. As lojas da cidade continuam abertas
e vendem cartões de aniversário e roupas de verão. As nuvens destoam.
O trânsito é confuso porque obedece à lógica dos dias – não das noites.
Há, no entanto, um silêncio que brota das coisas que têm odor,
feito o cheiro de um nariz envelhecido; e parece velar, contrito,
a imensidão dos pássaros de asas abertas.
Olho para o céu e vejo, sobre o azul de indústria dos seres humanos,
a imensa flor amarela cultivando a terra, agora cheirando
a cágado, folhas de outono e ventania.
...
No dia 31 de outubro passado, o poeta, ficcionista, letrista e professor Ildásio Tavares nos deixou. Grande figura, ninguém como ele entendia de Bahia e de candomblé: era membro da alta hierarquia do Axé Opô Afonjá. O poeta Henrique Wagner nos mandou este belo poema dedicado a ele. Henrique, que já figurou no Sidarta, faz jornalismo cultural e é autor de dois livros de poemas, “O grande pássaro” e “As horas do mundo,” os dois publicados pela editora Letras da Bahia. Recentemente, ele foi premiado por um ensaio sobre cinema.

COMENTÁRIO CRÍTICO


LUCINDA PERSONA,

sobre "OVELHA NEGRA E AMIGA LOURA"


É necessário que as histórias já se tenham passado", escreveu Thomas Mann enquanto explicava as razões do seu romance A Montanha Mágica. E é nesse clima, de tempo ideal decorrido, que se inicia um dos doze contos do mais recente livro de Sonia Coutinho, justamente o que dá o título: Ovelha negra e amiga loura (Rio de Janeiro: 7Letras, 2006).

As criações de Sonia Coutinho revelam mais do que tudo as vicissitudes do homem comum, os instantes de desenlace e as sacudidelas que a vida confere. Privilegiam a paisagem circundante, povoada pela memória, seja de um fato imediato ou longínquo. À medida que o leitor se reconhece, ele também se envolve com as sutilezas, com a natureza cíclica dos relatos e com a habilidade da autora em costurar experiência e expressão. A adesão é imediata aos enredos e personagens, todos eles gente como a gente. A escrita é franca e ágil, ocorrendo captação certeira da tragédia cotidiana e da atmosfera de indiferença que às vezes envolve tudo.

As narrativas fluem com um sentido crítico profundamente realista, evidenciando a figura feminina em várias de suas dimensões: mãe, filha, amiga. E também em muitas condições diferentes, como na solidão e maturidade.

Os contos de Sonia Coutinho, como expressão da realidade contemporânea, expõem personagens num itinerário de necessidades, amarguras veladas, desafetos, estarrecimentos, fraquezas, decisões dolorosas e fatais. As vidas são duras e flutuam entre o temor e a coragem, entre o trivial e o absurdo. O conto "Às vezes venta, de madrugada", protocoliza as agitações próprias desse mundo regido por deuses devoradores, como é o caso do tempo. "D de descoberta" é uma história que manifesta a tensão emocional da protagonista, guardiã de uma verdade inquietante, cuja confissão mergulha profundamente na sensibilidade do leitor.

A presença da escritora na prosa brasileira é das mais significativas, tanto por um processo expressivo impecável, engenhoso, quanto pelo volume da obra, sendo detentora de vários prêmios e, por duas vezes, do Prêmio Jabuti.

Nascida em Itabuna, Bahia, Sonia Coutinho vive há anos no Rio de Janeiro, cenário pleno de sentidos e muito freqüente em sua escrita, ambiente para o qual levou sua experiência de vida anterior, e onde plasma seu universo de ficções, paradoxalmente pleno de veracidade, valendo-se de uma prosa comunicativa e intensa.

E num tempo de leitura, de conto a conto, a oportunidade de se perceber que a escritora confirma não somente sua experiência e intimidade com a escrita, mas seu encanto por essa atividade de encanto inigualável.


*Lucinda Persona é poeta e professora da Universidade de Cuiabá - UNIC

TODA A VERDADE SOBRE A TIA DE LÚCIA

Conto de Sonia Coutinho


O escritor decide escrever a história que lhe ocorreu hoje, mesmo sendo triste. Decide escrever essa história que, além de triste, é incômoda. Está constrangido, prestes a pedir desculpas. Mas não pede. Apenas pensa: pena que eu não consiga fazer de outro jeito.
“Claro que eu preferiria escrever histórias alegres. Mas, à minha revelia, sempre saem tristes e incômodas,” ele admite para si mesmo, um segundo antes de se sentar e começar a escrever “Toda a verdade sobre a tia de Lúcia.”

“Preciso falar com alguém sobre essa tia antes que ela morra e sua história se torne definitiva, antes que sua história se transforme, para mim, num epitáfio,” pensa Lúcia.
É o primeiro parágrafo que o escritor escreve. E continua.
Sentada em sua cama, Lúcia observa uma fotografia da sua velha tia Lina, que acabou de descobrir numa gaveta do seu armário, num maço de fotos antigas, tiradas ainda em Solinas. Nesta, além da tia, aparecem ainda ela própria, em menina, e sua mãe.
A tia, de quase 90 anos, mora em Solinas. Ela e Ramiro, o filho de Lúcia, que também ainda mora lá, são os únicos parentes próximos lhe restam. Como Lúcia não se casou novamente e, de uns tempos para cá, seus relacionamentos amorosos cessaram, sua solidão se tornou radical.
Nem amizades de verdade ela tem: jamais se entendeu bem com as pessoas, no Rio, e continua mais ligada, interiormente, às antigas amigas de Solinas.

Lúcia teve de deixar o filho com sua mãe, quando se separou do marido e veio trabalhar no Rio. (Preciso descobrir o motivo grave e secreto para essa separação, pensa o escritor. Lúcia foi embora de repente, sem tratar nem de pensão do ex-marido.)
No início, ela levou Ramiro, mas era difícil conseguir alguém que tomasse conta dele, quando Lúcia saía. Ela ficava muito preocupada com o que poderia acontecer com menino, não conseguia nem trabalhar direito. E, quando voltava, Ramiro dizia sempre que queria ir para Solinas, morar com sua avó. O que acabou acontecendo.

Depois da morte da mãe de Lúcia, Ramiro, a essa altura já um engenheiro, disse a ela: “Agora que minha avó morreu, não quero mais ter o desprazer de ver sua cara na minha frente. Se ainda via você, era porque ela pedia.”
Uma completa mentira, Lúcia tinha certeza. A velha jamais pediria ao seu filho que continuasse seu amigo. Ao contrário, sempre fez tudo para separar os dois. Seu golpe de mestre foi o testamento que deixou, deserdando Lúcia em favor de Ramiro.
Isso provocou a ruptura definitiva entre mãe e filho.

Inesperadamente, o carinho que tia Lina lhe demonstra se tornou muito importante para Lúcia.
A tia usa frases de uma bondade antiga: “Nossa Senhora cubra você com seu manto de luz.” Repete: “Você é uma filha para mim, uma verdadeira filha.” E continua a chamá-la de Lucinha, como ninguém mais chama, há muito tempo.

Quando fala com tia Lina pelo telefone, Lúcia visualiza com ternura sua imagem: os óculos de lentes grossas, os cabelos já inteiramente brancos e ralos, a bengala que ela usa para caminhar.
Mas não consegue deixar de lado suas dúvidas quanto à sinceridade da tia – o carinho não será um engodo? Tia Lina, afinal, era tão unida com a irmã dela, a mãe de Lúcia.
E, se de fato a tia a ama, como diz, por que não lhe contou do testamento, quando a família inteira sabia de tudo e só ela, Lúcia, foi apanhada de surpresa?
Lúcia, às vezes, acha o discurso da tia parecido com o pranto das carpideiras, tudo fingimento treinado.Mas está tão carente de qualquer tipo de carinho que se deixa envolver, de qualquer forma.

Hoje, bem cedo, Lúcia recebeu um telefonema da tia. Em seguida, como de costume, chorou um pouco. Por que chora, todas as vezes em que fala com tia Lina? Talvez porque afeto, para ela, está associado com sofrimento, pensa.
Logo depois do telefonema, Lúcia se lembrou de uma certa fotografia. Onde estaria? Teve uma intuição, foi abrir a gaveta do armário - e lá a encontrou.
Sim, essa foto que ela agora observa, demoradamente, antes mesmo de tomar o seu café e trocar de roupa para ir trabalhar.
Tia Lina, sua mãe e ela estão na margem de um rio, em Solinas, onde há uma fileira de árvores finas e altas.
A tia usa um penteado antigo, com um grande pimpão, e Lúcia lembra, num relâmpago, que esse pimpão era feito com um enchimento de pano que ela vira, certa vez, na casa da tia Lina.
Agora, olha para sua mãe: linda, como sempre. Muito mais bonita do que Lúcia jamais fora. Menina, como aparece na foto, ela era feia, magríssima e com uns dentes tortos.
Já sua mãe parece uma estrela de cinema, num filme de depois da Segunda Guerra Mundial: batom escuro, saia justa na altura dos joelhos, de um tecido quadriculado, miúdo e escuro, e uma blusa de seda branca com mangas compridas e fofas e punhos abotoados.

Lúcia se levanta, vai até o banheiro, pega uma tesoura. Volta para a cama e corta a fotografia pela metade, separando a imagem da sua mãe, que rasga em pedacinhos e vai jogar no saco de lixo.
Foi demais o que a mãe fez com ela com aquele testamento, pensa, cheia de raiva. E fez isso mesmo sabendo das suas dificuldades financeiras, do seu novo emprego mal pago.
O testamento está obrigando Lúcia a fazer economias do tipo que distorce a alma de uma pessoa. Ela se tornou alguém que não pode mais comprar uma blusinha nova nem um CD de harpas celtas.
Resta decidir, agora, o que fará com a outra metade da foto, a parte em que ela aparece com tia Lina.

Num arquivo diferente, em seu computador, o escritor faz um resumo da vida de Lúcia, para usar em sua história.
O pai, que tinha uma boa situação financeira, morreu quando ela era ainda pequena. Todos os bens da família ficaram com sua mãe.
Mais tarde, já adulta, Lúcia não pensou em reivindicar direitos, achou que não era preciso, sendo filha única.
Não tinha feito um curso universitário porque sua mãe achou que não valia a pena, era bobagem, “melhor seria arrumar um empreguinho enquanto esperava marido.”
Lúcia, que naquele tempo era fraca e tola, deixou-se levar e arrumou um emprego que detestava. Então, nem essa saída ela teve, a de uma profissão rendosa.
Seria por causa da fuga de Lúcia para o Rio que sua mãe quisera castigá-la? Indaga-se o escritor. Mas não, ele conclui.
Lúcia tem certeza, ele escreve, de que o ódio da sua mãe era coisa mais antiga. Imperdoável, para mãe de Lúcia, era o próprio fato de ela ter nascido.
Sua mãe a odiava por causa do pai dela, escreve em seguida o escritor. Tinha repulsa pelo marido, uma repulsa que se estendeu à filha, continua ele a escrever.
Depois, de volta ao arquivo principal, o escritor passa a palavra à própria Lúcia, que conta seus primeiros tempos no Rio.

“Logo que cheguei, fiquei numa pensão no Catete, usando algumas economias que tinha. Procurei uma Antiga Amiga de Solinas e, a conselho dela, que conseguira seu emprego assim, esquadrinhei muitas páginas de Classificados.
Afinal, consegui ficar como secretária de uma firma importadora. Sempre gostei de estudar inglês, foi o que ajudou. Além, claro, da boa aparência que eu já tinha, aos 30 anos.
O salário deu para alugar um quarto-e-sala em Copacabana e então meu filho veio e ficou uns tempos comigo, antes de voltar. Mas férias e feriados, sempre eu sempre visitei Ramiro em Solinas.
Mais tarde, na casa dos 50, fui demitida, tive de me contentar com outro emprego de salário inferior.
O pior de tudo, meu pai morreu. Ele, que sempre me dizia: ‘Se precisar de alguma coisa, é só pedir.’”

O escritor, que é jornalista free-lancer, depois de um período desocupado recebe uma porção de pedidos de matérias.
E pára temporariamente sua história. Deixa Lúcia imóvel, sentada na cama, com os olhos voltados para a velha fotografia.
...

Estranhamente, sem nenhum motivo aparente, mesmo estamdp muito ocupado, nesse período o escritor começa a pensar em anjos.
Primeiro, vem uma imagem que parece de sonho, embora ele esteja acordado: anjos voam de um lado para outro, despejando flores em cima de um farol.
Num estado quase de transe, o escritor, que às vezes pinta, faz um pequeno quadro onde aparecem o farol, uma lua imensa, estrelas douradas e muito anjos.
Pensa: são anjos misteriosos como num quadro surrealista. Anjos sérios, graves, como no filme “Asas do desejo,” de Wim Wenders.
E recita as “Elegias de Duíno”, de Rilke : “Quem, se eu gritasse, me escutaria, entre as hierarquias dos anjos...”
Depois de algum tempo, já com menos trabalho, o escritor volta à história de Lúcia e da sua tia.

Claro que tia Lina não é nenhuma santa, argumenta Lúcia consigo mesma, tentando racionalizar uma relação que assume proporções imprevistas e a faz pensar em voltar para Solinas.
Na verdade, não apenas por causa da tia Lina, mas pela falta de dinheiro. O que mais Lúcia teme é ser obrigada a sair de Copacabana, ir para a Zona Norte.

O escritor escreve que Lúcia vai agora para a cozinha, tira da geladeira um mamão papaia, coloca duas torradas no forno, põe água para ferver. Tem de tomar logo seu café e se preparar para ir trabalhar, não deve chegar novamente atrasada, adverte a si mesma.
Mas, enquanto isso, continua a julgar mentalmente sua tia Lina.
Claro que a tia sabia do testamento, mas não lhe contou nada. E o imenso apartamento da sua mãe e os investimentos dela, que vinham do tempo do marido vivo, e um terreno, e uma casa de praia, tudo passou diretamente para Ramiro.
Surgiu até, Lúcia não sabia como, um documento forjado em que ela concordava com os termos do testamento.

Rasgará ou não a foto da tia Lina?
Lúcia toma rapidamente seu café. Tem medo de ser novamente demitida. Na véspera, já chegara atrasada ao trabalho.
Está cansadíssima de ser secretária e, atualmente, uma secretária mal paga. Mas, se parar de trabalhar, o que será dela?
Seria bem melhor, pensa, lavando a xícara e o prato, se acreditasse mesmo no amor da tia Lina.
Seria bem melhor se pudesse, sem dúvidas nem temores, continuar a ouvir a voz doce e cantante da tia, que vem pelo telefone, consoladora, lá de Solinas.
Resistirá ela a uma vida inteiramente sem amor? É o que Lúcia se pergunta, neste momento, antecipando com um arrepio a solidão arrasadora de uma existência assim.

Tenho de enxergar a realidade, tia Lina escondeu o testamento de mim, pensa Lúcia outra vez.
Mas, imediatamente, torna a perdoar a tia, lembrando de um presente dela, que recebeu dias atrás, pelo correio: uma camiseta com a imagem de Nossa Senhora da Glória.
Olhando para aquele objeto ingênuo e tosco, Lúcia chorou novamente, e agora com força. Pensou, com raiva, que era de propósito que tia Lina lhe mandava presentes assim, patéticos.
Só parou de chorar quando lembrou do advogado lhe dando, pelo telefone, a notícia do testamento.
Prevendo a pobreza na velhice, Lúcia uivava: “Não, não, não, não.” Mas era “sim,” e o advogado foi muito objetivo, quando explicou os detalhes.

O escritor reflete se vale a pena incluir em sua história pelo menos um resumo da vida da tia Lina. Decide que sim.
Ingênua e acomodada, Claudelina no entanto se casou por paixão com um tipo meio aventureiro, um forasteiro em Solinas. Ao contrário da mãe de Lúcia, que fez um casamento rico e sem amor.
Previsivelmente, o desastre foi completo, o marido de Lina logo a abandonou. E ela, depois da separação, Jamais Teve Outro Homem.
Felizmente, era funcionária pública. Tinha seu dinheirinho e o apartamento dos seus pais para morar. Agora, com uma minúscula aposentadoria, continua a viver lá, mesmo já sozinha.
O escritor pensa: é interessante duas criaturas com trajetórias tão diferentes, Lina e Lúcia, estarem agora lançadas numa situação parecida. Sim, de solidão, falta de dinheiro e envelhecimento, em maior ou menor grau.
É uma história horrorosa, conclui. Pelo menos, repete para si mesmo, com certeza colocarei anjos nela.

Lúcia tenta ainda decidir se rasga ou não a fotografia de tia Lina. Como pôde a tia silenciar, sabendo do cruel testamento? Como pôde concordar com o castigo que sua mãe lhe infligira?
Se, pelo menos, Lúcia tivesse levado, no Rio, algum tipo de “vida alegre”, como diria sua mãe. “ Mas, na verdade,” pensa Lúcia, “os dias da minha vida foram todos consumidos pelo trabalho duro. Só que, claro, moro em Copacabana e o pessoal de Solinas acha que isto aqui é uma espécie de covil da devassidão.”
Comentário da sua mãe, que lhe foi contado por alguém, ela não se lembra mais quem: “Lúcia sempre se deu muito bem com coisas dela, mas agora se dará muito mal”.
“Com tanto ódio em redor de mim, uma hora dessas fico sem dinheiro nem comer,” pensa ela, desesperada.

Quando acaba de tomar seu café, Lúcia torna a se sentar na cama e a olhar a fotografia cortada pela metade, agora só com sua tia e ela, na margem do rio, entre as árvores finas e altas.
Mas a tia é humilde, diz Lúcia a si mesma, tentando salvar seu último afeto. Com certeza, ela não contribuiu, de nenhuma maneira, para que o testamento fosse feito.
Por um instante, decide ficar com a metade da foto. “Amanhã vou comprar um porta-retrato para esta parte,” pensa, quase feliz.
Mas logo muda de idéia e tem um pensamento muito doloroso sobre tia Lina. Pensa que ela vive bajulando todo mundo, tirando casquinhas aqui e acolá, fazendo permanentemente o papel de boa, mas não é sincera. Tudo é fingimento, imagina Lúcia.

É quando o escritor sente que precisa pôr um ponto final em sua história. Não chegou a inventar o motivo para a separação de Lúcia e seu marido, o motivo grave e secreto que ele sabe que existiu, mas não podia ser revelado a ninguém e ela aceitou a culpa.
E o escritor sente que não disse tudo o que era preciso sobre Lúcia e sua tia. Mas não agüenta continuar, precisa parar.
Dispõe-se, então, a responder à pergunta: Lúcia rasga ou não a fotografia da tia Lina?
Em arquivo separado, ele coloca duas possibilidades.
A) Lúcia conclui que, sejam quais forem os defeitos da sua tia, ela ainda é a coisa mais próxima de uma mãe que conhece. E decide não rasgar a fotografia e continuar retribuindo o amor da Tia Lina.
B) Lúcia decide rasgar a foto. Sua tia estava muito próxima da sua mãe e sabia de tudo. Impossível uma pessoa que a amasse não lhe contar sobre o testamento, talvez ainda a tempo de Lúcia evitar que a crueldade se consumasse.
A decisão do escritor vem inesperadamente rápida. O correto é a possibilidade B, ele conclui.

Lúcia rasga a foto da sua tia e, como fez com a da sua mãe, joga os pedacinhos no saco do lixo.
Todo o seu amor neste mundo tinha sarado, ela sentiu, como uma ferida que cicatriza e não deixa nenhuma dor. Não chorará mais.
Segue para o banheiro, toma um banho, arruma-se para ir trabalhar. É melhor chegar atrasada do que não comparecer.

E, nos dias seguintes, Lúcia se movimenta pela vida a fora de maneira aparentemente normal: dorme sem insônia e acorda com coragem para dar um pulo da cama e seguir adiante.
Mas é apenas uma trégua, reflete o escritor. Desacreditar do amor da tia Lina está além da capacidade de Lúcia para suportar.
Sem a tia, só lhe resta aguardar a chegada dos Anjos.

Poucos dias depois. Lúcia começa a ver Anjos em toda parte. Anjos imensos e sombrios voam por cima do aglomerado dos prédios de Copacabana; um por um, descem, pousam no peitoril da sua janela e conversam com ela.
Deixou de ir ao trabalho, já não sai mais de casa, sempre esperando por eles.
Quando os anjos não aparecem, ela os invoca, com palavras que não sabe de onde vêm: MEBAHEL, HARIEL, HEKAMIAH!

Anjos cabalísticos, com nomes hebraicos, pensa o escritor, acabando de escrever a história que lhe ocorreu hoje.
Mesmo sendo triste.
Está prestes a pedir desculpas, mas não pede.
Apenas pensa: pena que eu não consiga fazer de outro jeito.
Pelo menos, conclui, coloquei anjos nela.

sábado, 30 de outubro de 2010

29ª BIENAL DE SÃO PAULO

COMO A ARTE PODE MUDAR A VIDA?
Sonia Coutinho

Depois que voltei de São Paulo, várias pessoas me perguntaram: “O que você achou da Bienal?” E respondi: “Adorei.” Sim, vesti a camisa da Bienal. Ou melhor, a camiseta.
Na qual está escrita a pergunta que podem ver na foto: “Como a arte pode mudar a vida?” Os dos 159 artistas com trabalhos expostos no pavilhão Cicilo Matarazzo, no Ibirapuera (em boa parte na casa dos 30, 40 anos), tentam – cada qual à sua maneira – responder a essa pergunta.
Como admitiu o curador Agnaldo Farias, em palestra exclusiva para o grupo de Charles Watson, do qual eu participava, nem todos esses artistas sobreviverão. Mas, no momento, é com eles que estão a pesquisa e a inovação contemporâneas.

Agnaldo Farias
Eles representam o que está acontecendo agora pelo mundo, em matéria de arte. Então, a recomendação é: mantenha a disponibilidade interior e deixe de lado os preconceitos, para poder aceitar e apreciar o que mostram esses artistas.
Não vamos entrar na detestável tendência que as pessoas têm, de só gostar de artistas e escritores mortos. A própria Clarice Lispector estava meio esquecidinha no fim da sua vida. Morava num apartamento modesto no Leme e passava dificuldades financeiras, fazendo um jornalismo tardio, para sobreviver.
Postumamente, Clarice chegou afinal a glória, que, em vida, ela dizia que desprezava.
Se não sabe nada sobre arte contemporânea, vá à Bienal como uma criança – e estará por dentro de tudo. Encontrei muitas crianças por lá - e pareciam divertir-se muito.
Seja qual for a reação do público, posso dizer que, nos quatro dias em que andei por lá, todos os andares da Bienal estavam cheios de gente.

Charles Watson

É natural uma certa perplexidade diante do que é novo. Eu, aliás, esperava ficar totalmente perplexa. Mas, feliz e até surpresa, não fiquei.
Graças, em boa parte, à minha freqüência, há nada menos de 15 anos, aos cursos da Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Vi com quase familiaridade os vídeos, filmes, desenhos, gravuras, colagens, fotografias na bienal.
Tem muita gente, neste momento, acotovelando-se para ver a retrospectiva de Monet, no Grand Palais, em Paris. Mas é bom lembrar a rejeição furiosa com que ele foi recebido, no século XIX, quando expôs no Salon des Réfusés, junto com os outros Impressionistas, recusados pelo Salon oficial.
O novo costuma provocar rejeições imediatas e burras. A pior de que me lembro foi a de Monteiro Lobato, a Anita Malfatti.
Sobre as obras dela, influenciadas pelo Expressionismo já vitorioso na Europa, escreveu Lobato: “mistificação ou paranoia”. Vamos evitar o provincianismo, gente.

Fernando Cocchiarale

Passei quatro dias em São Paulo e não fui a outro lugar que não à Bienal. Fiquei encantada com uma tão ampla exposição da nova arte, ainda mais com um tema atraente: a relação entre arte e política.
Em quatro dias, não deu para ver tudo, mas o que vi mexeu com minha cabeça. Trouxe o catálogo e continuo lendo-o.
Outra pergunta que me fazem: “E o Nuno Ramos?”Quando cheguei à Bienal, os urubus, graças a Deus, já tinham sido tirados daquela prisão barulhenta e confinada, longe do ar livre.
Comprei há algum tempo o romance “Ó,” do Nuno, premiado com o Telecom. Mas até agora não terminei de ler o livro, que é muito indigesto.
Mas mexeu com a cabeça de muita gente o fato de Nuno Ramos, artista visual, ter ganho o Telecom. A tendência atual é essa mesma, para uma mistura de ofícios. Para não se fechar apenas em um. É hora de interdisciplinaridade, das redes.
Acho que muitos artistas estão, neste momento, testando sua capacidade para lidar com palavras. O que, aliás, historicamente já tem sido feito. Lembrar, de imediato, alguns trabalhos de Picabia, frases escritas na tela. Os Cubistas.
Victor Arruda está com uma exposição assim na Ana Maria Niemeyer.
No próprio catálogo da Bienal, ao pé de cada página, há trechos de obras literárias famosas.
Outra pergunta que me fizeram, na volta de São Paulo: “E o Gil Vicente?” Achei os trabalhos dele antes de mais nada fracos. Franz Manata admitiu, generosamente: “O desenho é bom.”

Pedro França

Muita coisa na Bienal ninguém identificaria como “política”. Há trabalhos políticos de fato, como os de Cildo Meireles ou Antonio Manuel.
E há outros trabalhos que estão “apenas” no território – outra vez segundo o curador Agnaldo Farias - da política da arte, isto entendido, acredito, como “inovação contemporânea.”
Há um trabalho de Kosuth de que gostei muito. Quatro verbetes de dicionário, correspondentes a norte, sul, leste e oeste, cada um montado numa placa metálica. Abre-se diante de você, em sua cabeça, uma imensa extensão geográfica - é poético.
Explica alguma coisa falar de “conceitual contemporâneo”, em relação à Bienal?
Penetramos num “ninho” de Hélio Oiticica. O percurso do pioneiro Hélio é esclarecedor quanto ao que temos hoje em arte.
A pintura e a escultura “expandidas”, saindo da tela e da materialidade. A ideia de “beleza” mudou muito. A ideia de “contemplação” caiu, substituída pela idéia de “interatividade.”

Charles
e Cocchiarale


Tive companhia “da pesada” porque fui visitar a Bienal com um dos grupos do competente e sério Charles Watson (Charles é tão sério que às vezes parece mal-humorado, mas adivinho que ele tem muito humor escocês).
Quando menciono companhia “da pesada”, refiro-me, além do próprio Charles, sobretudo ao brilhante professor e curador Fernando Cocchiarale e ao simpático Pedro França (25 anos), professor de História da Arte na EAV.
Mas acabei, a maior parte do tempo, vagando sozinha pelos meandros da Bienal. Sou meio avessa a grupos – e a ficar em pé, ou sentada no chão, durante 12 horas por dia, ouvindo aulas, como meus companheiros fizeram.
Não podendo falar de tudo o que vi, separo, neste momento, umas coisinhas, ao acaso.Destaque para a obra dos brasileiros já “históricos”, vivos ou mortos, como Flávio de Carvalho, Hélio Oiticica, Carlos Vergara, Cildo Meireles, Antonio Dias, Lygia Pape (está lá aquele trabalho lindo dela, o imenso pano branco do qual emergem cabeças, e que foi apresentado ainda nos anos 70).
E, numa escolha caprichosa, casual, digo que adorei o trabalho de um artista belga nascido em 1969, David Claerbout, que lida muito poeticamente com o tempo, numa conjugação de fotografia/vídeo/música chamada “The Algiers’ Sections of a Happy Moment.”
Ao som de música, vemos um grupo de rapazes numa espécie de pátio, em Argel, alimenta gaivotas que descem para comer nas mãos deles. Linda, a expressão dos seus rostos, o voo dos pássaros. Claerbout focaliza a luz mutável, denunciando a passagem do tempo.
Ele quer questionar, como disse numa entrevista que li na web, “a substância do tempo.”
Pintava desde os sete anos de idade. Mais tarde, deixou a pintura pela fotografia e o filme, porque acha, partindo para o conceitual, que “a arte não deve consistir apenas de objetos”. Ele mora e trabalha em Antuérpia e em Berlim.
E meu olhar ainda algo nostálgico da pintura em tela bateu nos trabalhos de Rodrigo Lacerda, grandes e belas telas escuras com pontos muito coloridos, perto da entrada.
E nos trabalhos de um negro nascido em Bournemouth, Inglaterra – Kimathi Donkor.
Qual origem da sua família? Não consegui descobrir, nem no catálogo nem na Internet. Mas, pelo tema de algumas das suas telas, acho que ele é de origem haitiana.
Na obra de Kimathi, que vi na web, em telas não expostas na Bienal, ele lida com questões raciais e representa a escravização dos negros no Haiti.
Na Bienal, Kimathi apresenta uma tela sobre a morte do brasileiro Jean Charles, no metrô de Londres. As obras dele são vistosas e com um leve toque surreal, ou “ingênuo”.

MINICONTOS DE SONIA COUTINHO

QUATRO TEMPOS

Tela de Garouste

Os dois tomaram o trem em Frankfurt.
Pessoas acenaram calorosamente da plataforma, em despedida, como nunca mais ninguém acenara para ela, em sua vida. Eles acenaram em resposta, por trás do vidro da janela.
O trem seguiu pela margem do Reno e viram castelos muito antigos em cima das colinas.
Ela começou a falar sem parar, enquanto ele ouvia, gentilmente.
Era um homem muito gentil.
E ela era jovem e bonita, sabia que podia falar o quanto quisesse e seria aceita.
Quando chegaram a Colônia, havia outras pessoas da organização à espera deles, na estação.
Uma recepção muito amistosa, não sabia que nunca mais seria recebida assim.
Devia ser tudo para o homem gentil que a acompanhava, e não para ela, conclui agora.
Aquele homem tão gentil e inteligente que, depois da viagem, ela nunca mais viu.
Mas, na ocasião, não lhe ocorreu disso.
Apenas apertou com força as mãos estendidas.
E, de repente, erguendo os olhos para o teto de vidro da estação ferroviária, viu uma torre da Catedral de Colônia.
Então começou a rir, gargalhava com a boca bem aberta, sem tentar esconder, como habitualmente fazia, seus dentes ligeiramente tortos.
“Foi um dos momentos mais felizes da minha vida,” ela conta, vinte anos depois.
De uma vida que, a partir dali, teve poucos momentos assim, ela pensa.
Mas não diz.
+++
Desde pequena conheci a violência, fala a mulher. E ela fica ouvindo.
A mulher continua a falar.
E diz que, até recentemente, não pensava naquilo como violência. Não sabia definir o que tinha acontecido com ela.
Muitas vezes até duvidava que fosse verdade, achava que era tudo imaginação sua. Depois que conversou com uma psicanalista, passou a acreditar.
Mas a pressão em torno era muito forte para que esquecesse tudo, minimizasse. Algumas vezes foi interrompida, quando tentou revelar.
Termina dizendo, com voz abafada, que o homem, afinal, era seu próprio pai.
E ela pensa: essa mulher nunca superará isso, o impacto é forte demais, insuportável.
Ela sabe muito bem como é.
Não se sente capaz de ouvir mais nada do que a mulher tem para dizer.
E novamente se levanta, novamente vai embora.
+++
O período em que ela ia frequentemente a Petrópolis, quase sempre sozinha.
Seu caso com Marcel tinha terminado.
E, no apartamento minúsculo que comprara através dele, a solidão a impedia de dormir.
Marcel, o dono de uma imobiliária lá. O primeiro homem lindo da sua vida.
Mas, como descobriu um pouco mais tarde, muito bem casado. Uma mulher rica, dois filhos.
Quando comprou o apartamento em Petrópolis, o caso já terminara, mas ela ainda amava Marcel.
(Amor, a palavra é um luxo antiquado, pensa. Mas só saberia usar essa, com relação a ele.)
O pequeno apartamento estava caindo aos pedaços, mas Marcel prometeu ajudar na reforma. Deixou-se influenciar, comprou.
E tudo foi trocado no apartamento, que ficou com um piso de lajotas brancas, paredes pintadas de branco. Colocou dentro dele móveis bem coloridos, que comprou no Rio e mandou entregar lá.
Levou também um pequeno aparelho de som. Ouvia Frank Sinatra cantar “Stranger in the Night.” E Ray Charles, “Georgia on My Mind.”
Mas, depois que escurecia, a solidão a impedia de dormir.
Então, passou a subir para Petrópolis, ficar lá apenas durante o dia, e descer antes de escurecer.
Mesmo assim, gostava. Quando vendeu o apartamento foi que percebeu o quanto.
Suas longas caminhadas através do ar transparente e frio, o céu azul do inverno na serra.
Foi obrigada a vender o apartamento porque estava sem dinheiro. E, embora não o visse há muito tempo, ligou para Marcel.
A venda foi às pressas, muito abaixo do preço. Quem sabe ele recebeu alguma coisa por fora, pensou depois.
Perdeu Petrópolis e suas ilusões sobre Marcel.
Mesmo assim, teria perdoado tudo, se não fosse o quadro. Sim, o quadro que ela pintou e deixou pendurado na parede do apartamento.
Tinha trabalhado a tela a partir de esboços que fez lá em Petrópolis, na Praça da Liberdade, diante do chafariz de mil esguichos.
Disse a Marcel que ele podia ficar com os móveis, fazer com eles o que quisesse.
Mas o quadro, o melhor que já pintara em sua vida, o quadro como jamais pintaria igual, ela queria. E ele não devolveu.
Telefonou para seu escritório, para seu celular, não teve mais resposta.
Não chorou quando seus pais morreram. Não chora por seu dinheiro tão curto.
Mas agora, lembrando o quadro, ela se vira de bruços na cama e explode em prantos, com a cara enfiada no travesseiro, como uma criança.
+++
Sempre se surpreende com as transformações causadas pela passagem do tempo. Um processo que sua mente não consegue apreender.
Na véspera, ficara de joelhos no chão, para procurar um anel que rolou para debaixo da sua cama - e quase não conseguiu ficar em pé outra vez. Teve de fazer muita força, o corpo todo doendo.
Dias antes, tentara subir numa cadeira, para tirar a mala da parte de cima do armário, e quase desabou, as pernas não queriam endireitar-se.
Antes, a mudança parecia mais lenta, agora tem a impressão de que se acelerou.
Recusa a frase dramática que lhe vem à cabeça: “Estou muito velha.”
Faz força para pensar que, apesar do desgaste físico, há a compensação de ter adquirido outro tipo de conhecimento da vida, uma nova lucidez.
Mas não consegue acreditar nisso.

TRÊS MULHERES EM DESTAQUE

CRISTINA BAHIENSE


O projeto que a artista visual Cristina Bahiense enviou para o Centro Cultural da Justiça Federal foi aprovado e ela exporá seus trabalhos lá no ano que vem.
Cristina foi minha colega em dois cursos teóricos, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage: Teorias da Arte, com Fernando Cocchiarale, e Arte como conhecimento, com Franz Manata.
Cristina participou da primeira e célebre exposição que a chamada Geração Oitenta fez no Parque Lage em 1984, com curadoria de Marcos Lontra.
E continua a trabalhar, agora com peças em 3D, usando acrílico e folha de alumínio. Mas também faz colagens.
Cristina me mostrou fotos de algumas das suas colagens e pedi que me enviasse uma, para o Sidarta. Ela enviou também um dos seus trabalhos em folha de alumínio.
Além de fotos rasgadas e coladas, ela usa, nesta colagem, uma fita do mesmo material, superposta e também colada.

Pergunta a Cristina : Pode dizer algumas palavras sobre seu processo criativo? Como é que você utiliza desenho e colagem?
Resposta: O desenho funciona como um projeto onde o pensamento plástico se estrutura; nas colagens, esse pensamento é executado, mas de forma sempre sempre aberta às novas descobertas. Os materiais industriais que uso, como telas plásticas, tecidos, folhas transparentes em acrílico, etc, dialogam com meu processo criativo, muitas vezes sugerindo os caminhos a tomar.

Alguns dados recentes do currículo de Cristina Bahiense:
2010 - Projeto Zona Oculta – “Entre o público e o privado”.
Coletiva no CEDIM, SESC (Rio)

2009 - Percursos - individual Galeria do Centro Cultural IBEU - RJ.
- Fotolaje – EAV – Projeto Foto Rio 2009
- Construct.com - coletiva do Centro Cultural Candido Mendes - Centro RJ
- Curso de Arte Contemporânea – Fernando Cocchiarale – P.O.P
- Curso Teorias da Arte - Fernando Cocchiarale - EAV

2008 – Superfícies Latinas - individual no SESC Teresópolis – RJ.
- Curso de Arte Contemporânea – Paulo Sérgio Duarte – P.O.P
Passagens e Persistências

2007 – Novíssimos 2007 - Galeria IBEU – Rio de Janeiro.

URÂNIA TOURINHO PERES

Urania com Emilio Rodrigué

Fui colega de escola de Urânia, hoje uma conceituada psicanalista baiana, mas passamos muito tempo sem contato. Recentemente, nos reaproximamos. E verifiquei que ela continua em plena ação, muito jovem.
Não era nada comum, para as moças da nossa geração, apostar com tanto empenho numa atividade profissional. Mas Urânia fez isso – e o resultado é uma atuação profissional competente e reconhecida, que inclui a organização de seminários, palestras em várias cidades e a publicação de diversos livros.
Urânia me deu alguns deles. “Frida Kahlo: dor e arte” (Colégio de Psicanálise da Bahia, Coleção Memorar), reune artigos sobre a saga de sofrimentos de Frida, sob a ótica psicanalítica. Outro, “Depressão e melancolia”, da série “Psicanálise passo a passo”, da Editora Zahar, aborda de forma bem pessoal o tema indicado pelo título.
Ela organizou também um livro com ensaios sobre seu grande amigo, o psicanalista argentino Emilio Rodrigué, que foi morar em Salvador e lá teve uma atuação muito admirada e influente.
Rodrigué morreu há poucos anos.
Diz Urânia, em depoimento sobre ele:
“O destino trouxe Emilio à Bahia, onde viveu o período de maior riqueza afetiva e intelectual. Ele disse: ‘Acho que a Bahia me tornou um homem notável e estou pensando em termos de sabedoria. Foi aqui que, seguindo o Eclesiastes, começou a hora da colheita. A Bahia foi o tempo de colher os frutos’. Emilio amou Salvador-Bahia como poucos amantes sabem fazê-lo: intensa e fielmente. Para ele, a sua vida dividiu-se entre um antes e um depois, e ele confessou que um sussurro vindo da boca do mar de Ondina disse-lhe: ‘Fique aqui!’ E ele ficou.”
Urânia é casada com o poeta Fernando da Rocha Peres, membro da famosa Geração Mapa, que incluiu, entre outros, o cineasta Glauber Rocha.

SONIA PEÇANHA


Penso sempre em Sonia Peçanha com carinho especial porque, alguns anos atrás, ela foi minha aluna numa oficina literária, de curta duração.
Sonia, junto com Alexandre Brandão, Cristina Zarur, Marilena Moraes, Miriam Mambrini, Nilma Lacerda e Vânia Osório estão em “Amores vagos”, recém-lançada coletânea de contos.
O livro é uma celebração. Antes de mais nada, da própria literatura. Mas também dos 25 anos de um grupo de criação literária formado pelos autores, o “Estilingues”. http://estilingues.wordpress.com/
A orelha de “Amores vagos” é de Luiz Ruffatto, que diz: ...“Desse encontro... nasceu uma grande amizade, edificada em interesses comuns e admiração mútua. Vencendo as vicissitudes dos dias – e foram tempos difíceis, e foram tempos complicados -, eles mantiveram-se unidos e lá se vão 25 anos! Em 1991, publicaram ‘A palavra em construção’, a primeira coletânea a reunir os contos do grupo, do qual ‘Amores vagos’ é desdobramento e coroamento. O leitor perceberá, neste livro, que, embora não necessariamente comunguem ideias estéticas (afinal, distante está a época das ‘profissões de fé’), podemos detectar alguns procedimentos convergentes, como a preponderância do espaço urbano, o realismo da narrativa, a linguagem coloquial. ‘Amores vagos’, enfim, é uma declaração de princípios, que tem como corolário a reafirmação da literatura e a reafirmação da amizade num mundo que vem refutando uma e menosprezando a outra. E é também um convite: um convite para que nós, leitores, partilhemos esse momento de trégua e reflexão.’” O volume, de 141 páginas, foi publicado pela Editora Alternativa, de Niteroi.

COMENTÁRIOS CRÍTICOS

MÁRCIA DENSER,
sobre “Atire em Sofia”


Prosa em dolby

“Atire em Sofia,” o primeiro romance de Sonia Coutinho, é um livro definitivo. Com um estilo aprimorado ao longo de cinco livros (O último verão de Copacabana, Venenos de Lucrécia, Uma certa felicidade, O jogo de Ifá, Nascimento de uma mulher), a contista traduzida na Alemanha e jornalista de O Globo dá o salto qualitativo.
A exemplo de outros escritores da década de 70, Sonia Coutinho está fazendo prosa de sistema dolby: dois canais de linguagens superpostas, cujas associações subliminais soam como música. Através desta técnica de linguagem, a autora corta fundo e de forma indolor, expondo o funcionamento dos mecanismos da estrutura do poder pelo lado de dentro.Dentro de nós. O opressor está aqui dentro. Desconsiderá-lo é crime de lesa humanidade.
O sistema dolby envolve o leitor pelo sentimento, sem exigir referencial de leitura. Naturalmente, quanto mais amplo o referencial, mais o texto se amplia. É a tecnologia do futuro em literatura.
A narrativa do romance insinua-se como um ritual encantatório, ao som dos atabaques do candomblé, trechos de ópera mesclados com versos metálicos da Iron Maiden, a poesia de Homero, frases de jazz, rezas, esconjuros, fundindo-se numa sinfonia profana de maldições. Minando por baixo, despertando criptominésias (memórias sepultadas no inconsciente coletivo), começa o deslocamento no tempo e no espaço.

A estrutura do romance é uma construção “em abismo” em três níveis. Maravilhas da ficção. Chega-se a uma Salvador mítica, semelhante a Alexandria, Tanger ou Gaza. Depois de 20 anos de ausência e com olhos de quem já viu tudo, a jornalista Sofia do Rosário volta à terra natal e descobre uma cidade arcaica onde o tempo é circular, encruzilhada de raças pecados inconfessáveis, preconceitos. Terceiro Mundo.
Neste verão, retorna João Paulo, outro jornalista, viciado em uísque, jazz e Scott Fitzgerald. Um anjo exterminador que decola em Salvador para escrev3er a história de Laura Luedi, ex-miss assassinada num hotel de luxo em Copacabana. Ele delira: “Me chame de Stingo, o apelido pelo qual eu era conhecido naquele tempo, se é que alguém me conhecia.” Contudo, nesta zona fora do tempo, os deuses impiedosos castigam os anjos arrogantes que os desafiam.
A punição chama-se Moira, o destino cego. De fato. É um erro subestimar os “deuses” ou os opressores internos. O que ocorre entre Sofia e João Paulo é um duplo equívoco por sobre seus ombros e à revelia de ambos: “Num gesto rápido, cobre a arma com travesseiro e diz: Que sensação esquisita. Estou dividido em dois. Há um que age e outro observa, lá em cima. Este me ordena ‘Atire na miss.’” É o tênue limite entre o sublime e o ridículo, contudo é neste fio de navalha que se desenrola toda a tragédia humana – esta comédia de erros. É a boa ficção de Sonia Coutinho. Mesmo porque não se trata da questão bizantina homem/mulher. O buraco é mais embaixo: o indivíduo. É ele quem morre, é ele quem mata. Enquanto os demônios no porão continuam donos da casa.

Resenha da primeira edição do “Atire em Sofia”, na revista “Isto é”

CLAUDIUS PORTUGAL,
sobre “Uma certa felicidade”


O sonho de todo autor

Um dos maiores sonhos de todo autor é ter toda a sua obra publicada por uma mesma casa editorial. E isto é o que está acontecendo com a romancista e contista baiana Sonia Coutinho. A editora 7 Letras, com a publicação de “Uma certa felicidade”, fecha o ciclo de edições de todos os livros de contos dessa escritora, nascida em Itabuna, mas residindo no Rio de Janeiro há muitos anos, e também jornalista e tradutora. “Uma certa felicidade”, agora na terceira edição revista e ampliada, com mais um conto, teve sua primeira edição em 1976. São ao todo oito histórias.
Histórias que tratam de temas como a deste início do conto “Essas tardes de maio”:
“ É sinistro um apartamento solitário de noite, ainda mais com o telefone mudo. E para quem poderia eu telefonar, a esta hora? Rodrigo não tem celular, ligar para o seu telefone fixo é impossível, a mulher dele pode atender. Ele ficou de vir, mas até agora não apareceu.
Vou até a cozinha, dou outra olhada no relógio de parede, já são onze e meia. Agora, no banheiro, diante do espelho, retoco mais uma vez, - inutilmente, eu sei – a maquilagem.
Fumo outro cigarro, vou à janela do quarto – e espio, amedrontada, a intransponível muralha de concreto, com seus quadrados já apagados, os prédios de repente imensos erguendo-se silenciosos no escuro, como árvores gigantescas de uma floresta toda metal e cimento, nenhuma umidade ou frescor, estranho mecanismo adormecido, Copacabana.”
Em “Uma certa felicidade,” Sonia Coutinho descreve com originalidade e criatividade o universo feminino da solidão, da necessidade financeira, do mundo do trabalho e das dificuldades em uma cidade grande, nos seus movimentos onde pequenos e novos detalhes se incorporam ao cotidiano, onde personagens aparecem e somem, deixando apenas marcas e lembranças. São as mulheres de hoje e de sempre, com seus enigmas, seus amores, suas histórias de vida.
Autora de seis livros de contos, quatro romances e um livro de ensaio, e tendo recebido prêmios como o Jabuti em 1979 e 1999m e o prêmio Clarice Lispector de Conto, da Biblioteca Nacional, em 2006, e participado de inúmeras antologias no Brasil e no exterior, Sonia Coutinho é hoje uma das mais importantes escritoras que temos no Brasil. Sua obra como contista, agora ao alcance de todos, pode finalmente ser lida. Com isto, a Bahia, sua terra, pode finalmente conhecer e admirar esta escritora. Nunca é tarde, sempre dizemos.

Este texto de Claudius foi lido recentemente em seu programa numa rádio de Salvador

POESIA - BAHIA

WLADIMIR SALDANHA


REGISTRO GERAL

O número é o mesmo, desde o dia
em que o recebi, sem questionar.
Meu número: sem numerologia,
grudou-se, grudou-se em mim! Sorte? Azar?

Não sei. Sei que me lembro das mãos pretas
com que fiquei, tão sujas!, pra deixar
as minhas digitais nas tabuletas
e que não foi “poeta” – ao perguntar

a profissão, o que lhe declarei
- àquela, também ela, funcionária...
E lá estou... Aguardo Wladimir

- o novo, numerado, menos pária!
Aquele que não vem, mas o que hei
de ser quando depois chegar a vir.

ÁGUA-VIVA

Difícil é saber
o que, sendo translúcido,
é ácido

o que, sendo flébil,
é açoite

o que, sendo nado,
bruxuleia

porque, sendo nada,
é vida.

Wladimir é contista e poeta. Formado em Direito pela UFBA, atua profissionalmente na área jurídica, como analista judiciário.Tem Mestrado em Teoria Literária pelo Instituto de Letras da UFBA, com dissertação sobre a obra de Jorge Amado. Cursa atualmente o Doutorado em Letras no mesmo Instituto, com tese sobre a obra de Lêdo Ivo.Tem, inéditos, os livros “Pequenas Avarias” (contos), “Fardo Sutil” (poesia) e “Pesca e Pronúncia” (poesia).Participou das coletâneas “Poetas na surrealidade em Estremoz”, publicada pela Câmara Municipal de Estremoz (Portugal, 2007) e “DiVersos − Poesia e Tradução” (Águas Santas, Portugal, 2008). Outros poemas seus foram publicados na “Revista Iararana”, de Salvador (2000) e no jornal “A Tarde Cultural” (2000 e 2007). Tem contos na internet.

SILVÉRIO DUQUE


E o que adoro em ti é tua carne,
porque tudo o que é vivo se deseja;
assim, desejo em ti o meu tormento
que há-de crescer na proporção do tempo.

O que eu almejo em ti é tua sombra,
pois toda boca habita as mesas vozes
que hão-de tecer com gritos o teu nome
na tarde azul tragada pela noite.

Beijo o teu rosto como se existisse
algum lugar pr’além do Precipício,
e, junto ao gosto de teu lábio esquivo,

uma palavra, sobrescrita em sangue,
há-de adornar o verso em que eu me esqueço,
e há-de extirpar, do amor, a fúria imensa.

+++

Que sabes tu dos frutos, das sementes,
da dureza das flores contra o vento?
A aurora vem tragar a noite espessa
de onde brotou, sem dores, o teu grito.

Se a afirmação do amor nos aborrece,
Morrer é mera vocação dos vivos,
pois no morrer de tudo há um recomeço.
Não queiras mal ao tempo ou ao espanto;

não queiras mal ao grão, à terra escura...
Que sabes tu das trevas ou da carne?
Que sabes tu das noites, dos princípios?

Hoje, é chegado o tempo dos retornos
e toda forma espera o seu ofício
como o vaso existente todo o barro.

Silvério nasceu em Feira de Santana, Bahia, em 1978. Trabalhou como desenhista, restaurador e ajudante de mecânico, antes de descobrir sua vocação, o magistério. Diplomou-se em Letras Vernáculas na Universidade Estadual de Feira de Santana. Sua primeira paixão foi a música. Ainda menino, foi clarinetista de duas Bandas Filarmônicas, na cidade de Tanquinho. Em Feira de Santana, foi coordenador de uma escola de música. Seu primeiro livro foi “O crânio dos peixes” (Edições MAC/2002), seguindo-se “Baladas e outros aportes de viagem” (Edições Pirapuama/2006). Participou de concursos literários (ganhou alguns prêmios) e antologias, e vem colaborando com periódicos, bienais e em vários projetos musicais. “A pele de Esaú” (Ed. Via Literarum/ 2010), de onde foram tirados os poemas a seguir, é seu livro mais recente. Mas ele já tem outro no prelo, “Ciranda de sombras”.Sobre “A pele de Esaú,” escreve Ildásio Tavares: “Neste meridiano da perda e da rejeição, na figura de um Esaú destituído de seu destino, Silvério elabora uma intricada associação de sentimento e pensamento, buscando a verticalidade de personagens que se multiplicam porque se querem fundir em um só. Afinal, o drama de degredo e aparte que sofre Esaú é de todo ser humano, anjo caído que, um dia, se afastou da presença de Deus. E toda odisséia que Esaú tem que executar, na busca de si mesmo, pode-se configurar em seus aspectos trágicos e cada poema desse livro, pois, discorre sobre um jaez da personalidade humana com este suporte analógico, na verdade.”

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

SONIA COUTINHO

Tela de Adriana Cangalaya


A PAIXÃO DA MULHER BARBADA

Vou contar, Solange.
Uma história de imensas improbabilidades.
Digamos que alguém viaja para Lhasa e, dentro do Potala, encontra um amigo que não via no Rio há mais de vinte anos.
Nenhum dos dois esperara jamais ir ao Tibete mas, por motivos inteiramente inesperados e casuais, acabaram indo.
Os amigos passam a imaginar que existe algum tipo de elo misterioso unindo suas vidas. Que um golpe inesperado do destino, atingindo ambos, será desferido a qualquer momento.
Então, quando voltam para o Rio, telefonam-se regularmente durante anos, aguardando com temor o Acontecimento Apocalíptico.
a)Até que uma Coisa Incrível acontece.
b) Até que nada acontece, nunca.
É mais ou menos assim, Solange, a história da Mulher Barbada e do Trapezista do Outro Circo.
Talita e Jancsi, assim se chamam.
(Ela me explicou: soa Iante, mas se escreve Jancsi, a família dele é húngara, embora eles morem há muitos anos em Bhagsu, uma vila perto de Dharamsala, onde está refugiado o Dalai Lama.)
Um homem, uma mulher. Uma separação e um reencontro, muitos anos depois.
Sim, a mesma história. A que conto sempre.
Mas cada dia os personagens usam máscaras e fantasias diferentes.
+++
O dia começou com a voz de Adriana Calcanhoto cantando no rádio.
“Com o que será que sonha/ A mulher barbada?/ Será que no sonho ela salta, como a trapezista?/ Será que sonhando se arrisca/ Como um domador?/ Vai ver ela só tira a máscara/Como o palhaço.
O que será que tem/ O que será que hein?/ O que será que tem a perder/ A mulher barbada?”
E, às nove em ponto, Talita tocou a campainha. Abri a porta e viemos para este quartinho onde boto cartas. Ela se sentou onde você está, à minha frente.
E agora faço um jogo, Solange, para me inspirar. Uma a uma, coloco entre nós, em cima da mesa, cinco cartas do meu Tarô formando uma cruz.
A Força. O Enforcado. A Lua. Os amorosos.
A quinta carta, a ser posta no centro da cruz, quando a vejo me assusta: A Roda da Fortuna.
Mas não se preocupe, Solange. Não estou lendo sua sorte, sei que você não gosta.
É apenas uma brincadeira.
Através dessa janela, vi os pombos voarem entre as muralhas de prédios, num ameno céu de setembro, em Copacabana.
E arrumei na mesa as cartas do Tarô, enquanto Talita me contava que se apresentara, durante anos, como mulher barbada de um circo.

Mas nada, em sua aparência naquele momento, deixava adivinhar isso.
Ela era como o resto das minhas clientes: uma mulher de classe média, meia-idade, bem vestida. Nenhuma barba visível. Nem feia nem bonita, talvez um pouco gorda.
+++
Sempre amei o Tarô, Solange, mas nunca imaginei que fosse virar uma fonte de renda indispensável para mim.
Eu era professora, você sabe, mas me aposentei ainda jovem. E, em vez de dar cursos particulares, como minhas amigas sugeriam, virei cartomante.
No começo, jogava cartas de graça, para conhecidos. Hoje, cobro de todo mundo, sem constrangimento, virei profissional.
E fico sabendo da vida de muita gente, principalmente de mulheres.
Como Talita.
Nunca ligo o rádio do meu aparelho de som, mas naquele dia liguei. “Mulher barbada”, cantou Adriana Calcanhoto.
E a música atingiu profundamente alguma coisa dentro de mim. De primeira, registrei mentalmente, cada palavra da letra.
Pouco depois que a Calcanhoto acabou de cantar, fui ociosamente até minha estante, tirei um livro qualquer e o abri ao acaso.
Era um volume das obras completas de Kafka e na página aberta estava um conto que amo, “Um artista do trapézio.”
Pouco depois, quando conversei com Talita e ela me contou que fora mulher barbada e amava um trapezista, senti um calafrio. A música, o conto, de Kafka, eram prenúncios, pensei. Mas do quê?
+++
Talita veio aqui porque queria saber se, algum dia, o Trapezista Jancsi voltaria ao Brasil, como lhe dissera em muitos dos e-mails que lhe mandara.
Ou, pelo menos, queria saber se ele voltaria para Paris, onde ela o conhecera, muitos anos antes.
Estava preocupada porque, na véspera, recebera um e-mail no qual ele contava que se afastara do seu circo e voltara para o vilarejo hindu onde nasceu.
Demitido do circo? Aposentado? Talita não sabia, ele nunca revelava nada com clareza.
E, se ela se permitia sonhar que o reveria em Paris, sabia que ao Himalaia não iria nunca.
Em certo momento, Talita revelou que Jancsi tinha um assunto pendente no Rio. Dinheiro para receber, de apresentações, e não queriam pagar.
Um amigo de Talita, advogado, cuidava disso.
Será que ele mantinha a correspondência com Talita apenas por interesse?, indaguei imediatamente a mim mesma, cética que sou.
Parecia estranho, considerando tudo, o fato de Jancsi ter escrito para ela durante quase dois anos.
Precisaria apenas de uma pessoa para solucionar suas questões profissionais? Estaria vaidoso com a declarada paixão de Talita por ele?
Ou também sentia alguma coisa por ela?
Não sei, Solange. Não saberei nunca. Talita também me disse que nunca saberá.
+++
Quer que eu continue? Então, vamos.
Recapitulo: ainda jovem e barbada, Talita foi a Paris com seu circo, então muito conceituado. E lá conheceu o Trapezista Jancsi, um rapaz alguns anos mais novo do que ela e muito bonito.
Conversavam longamente e Talita se encantou por ele; mas nada aconteceu entre os dois.
O inesperado e casual reencontro deles, 25 anos depois, numa esquina de Copacabana, deflagrou a paixão de Talita.
Em parte, como ela me explicou, por uma crença irracional de que voltaria ao passado através de Jancsi, de que recuperaria sua juventude.
E ela também viu o Dedo do Destino num reencontro tão improvável.
Eles se encontraram algumas vezes, aqui em Copacabana, mas o Trapezista já estava com viagem marcada de volta a Paris e ficou apenas mais três semanas no Rio.
Antes da partida dele, Talita falou dos seus sentimentos: “Não sei que nome dar a isso.”
Mas sabia que tinha poucas chances. Era uma mulher barbada diante de um belo e ainda muito bem apessoado Trapezista.
Depois da partida de Jancsi, Talita mudou de vida. Abandonou o circo, fez um tratamento a laser para tirar os pêlos do rosto e arrumou um emprego de secretária numa grande firma, graças às línguas que aprendera em suas viagens circenses.
Atualmente, como eu, ela mora aqui em Copacabana, no Posto 4.
+++
Explico um pouco mais, Solange.
Na verdade, a barba de Talita nunca foi tão espessa quanto aparentava no circo, ela me disse.
Tinha no rosto apenas fios ralos, que reforçava, para suas apresentações, com a aplicação de chumaços postiços.
Se entendo de circos? Nada, ou quase nada.
De trapezistas, só sei o que aprendi naquele conto de Kafka, tão cheio de uma louca e inexplicável nostalgia.
Também sei pouco sobre a própria Talita. Por que ela, filha de uma família de classe média da Tijuca, moça com alguma cultura, acabou mulher barbada de um circo? Ignoro a resposta.
Aquele primeiro dia, a consulta de Talita foi curta e não lhe disse nada conclusivo, só falei que era preciso tornar a botar o Tarô.
Quando já nos despedíamos, movida por uma intuição repentina, declarei:
- O Trapezista voltará, sim, mas talvez as circunstâncias não sejam como você gostaria.
E fechei a porta.
Tempos depois, Talita veio aqui e confirmou minha profecia. Sim, Jancsi reaparecera, estivera no Rio com um circo indiano.
E, quase 30 anos depois do primeiro encontro, foram afinal para a cama.
Foi quando Talita descobriu que não tinha verdadeira atração física por ele, sua paixão era uma coisa mental, nada a ver com sexo. Ela me revelou: era como acontecera, durante toda sua vida, em seus relacionamentos com os homens.
Perguntei se sentia atração por mulheres e Talita admitiu que sim, mas tudo num plano fantasioso. Nunca acontecera nada de concreto.
E então ela declarou que preferia , àquela altura, a solidão. Não se arriscaria a novos amores, teria apenas amizades, fosse com homens ou mulheres.
Mas não sei se devo acreditar nisso. Naquele dia mesmo apareceu aqui, para se encontrar com Talita, uma moça muito bonita, mas com um buço mais cerrado que o da Frida Kahlo.
+++
Sim, Solange, admito, é mentira.
Claro que não aconteceu nada disso.
Digamos que a história me veio à cabeça quando ouvi Adriana Calcanhoto cantando “Mulher barbada” e o livro se abriu na página do conto “Um artista do trapézio.”
Há uma Talita e um Trapezista, mas o final da história é diferente.
Então agora lhe conto o final verdadeiro.
Talita continuou a se corresponder com Jancsi, até entender que ele nunca mais voltaria ao Brasil, como dissera no início da correspondência dos dois.
Nem ela iria nunca à Índia, sequer a Paris.
E aí ela parou de escrever. E aí ele também parou de escrever. O tempo passou, veio o esquecimento.
Foi só isso.
Não tem muita graça.
Enfeitei a história para divertir você.
+++
Mas você ainda me olha com descrença.
E tem razão, Solange.
Então, parece que chegou o momento de tirar todas as máscaras. Não há nenhuma Talita, a personagem central dessa história sou eu mesma.
Também não há trapezista, mas um professor.
Como sabe, fui professora de literatura. Veio ao Rio um professor estrangeiro que eu conhecera há muitos anos, num congresso em Paris.
Um homem que eu não via há tanto tempo e revi por acaso, numa esquina de Copacabana. Sim, eu o reconheci imediatamente e ele a mim.
Tive a impressão de que era possível trazer de volta o passado, transcender espaço e tempo.
Ele viajou de volta, nós nos correspondemos por e-mail. Mas tudo acabou quando descobri que ele omitia e distorcia muita coisa sobre sua vida.
E fazia promessas que, como fui descobrindo, não se cumpririam nunca. Por exemplo, nunca teve a menor intenção de voltar algum dia ao Brasil.
O que havia por trás das suas frases elípticas era banal, distante dos delírios da minha imaginação. Casado, três filhos, vida rotineira.
Assim, tudo se desfez.
Ele se tornou irreal e remoto, como uma cifra na imensa estatística da população de um país distante, que nunca visitaremos.
Cuidei de alguns interesses dele, no Rio. Não me custou tanto assim. Se era por isso que ele me escrevia todo dia, não sei.
Mas lhe digo, Solange, pelo menos foi um amor que teve um fim indolor. Acabou como a Boa Morte, pela qual tantos rezam.
Acha que amanhã contarei outra vez a mesma história, mudando apenas as máscaras?
Não, nunca mais. Passou.
Agora, guardo meu Tarô e vou descansar.
Volte amanhã, estarei te esperando como Xerazada ao seu príncipe. Garanto que minha nova história não terá mais uma mulher, um estrangeiro e um reencontro improvável, muitos anos depois.
E você, quando tirará sua máscara, Solange?

CARLOS HENRIQUE SCHROEDER


AS CERTEZAS E AS PALAVRAS
Se excluirmos a morte, ao nascermos, duas outras certezas nos acompanharão: a de que seremos filhos frustrados, num determinado momento, e pais inseguros, em outro.
Cássio sabia disso e coçava a cabeça quando essas certezas o afligiam, certeiras, e mesmo com as insistentes reprovações de Sarah, o incerto Cássio coçava e coçava, e por entre seus finos cabelos, se bem perscrutássemos, as feridas existiam. Cássio também tinha a certeza de que não choraria no enterro de seu pai. Não me surpreendo. Nunca o vi chorar nesses quinze anos em que o conheço, nem uma lágrima, sequer um brilho etéreo nos olhos, apenas um campo vasto e esverdeado nas pupilas. Ele se culpa por não nutrir nenhum sentimento, nenhum mesmo, pelo pai, nem amor, nem ódio, eu não entendo e ele não consegue me explicar. Ele acha que não sabe educar os filhos, mas eu lhe digo, e quem sabe? Quando me mostrou sua coleção de tampas de caneta, pensei que nada mais pudesse me surpreender nele, mas Sarah, sua esposa, me confidenciou algo. Cássio tem fixação por uma palavra da qual eu nem sabia o significado, mas descobri: afinal, era o sétimo verbete da terceira coluna da página 2.072 do Dicionário Houaiss. Segundo Sarah, ele se diverte criando historietas com a palavra “opróbrio”. Pelo que eu sabia, Cássio era um ágrafo e suas obras completas poderiam se resumir a suas assinaturas no talão de cheques. Também não me lembro de Cássio ter lido um livro sequer na vida, e fiquei ainda mais surpreso quando certo dia Sarah me entregou uma de suas histórias num guardanapo: "Há na palavra opróbrio algo de indecente, até mesmo de pornográfico, talvez seja a exposição indecorosa das três letras o, sugerindo um casal e o filho assassinado com uma facada nas costas, ou ainda um casal e seu filho punk. Não consigo vislumbrar nada em prol desta palavra, tampouco brio, em duas sílabas espremidas entre vogais, sufocadas, reticentes, impróprias. Dentre as palavras com oito letras, ela é, sem sombra de dúvida, a mais perigosa. Esconde em suas letras a simbologia do assassinato: o p matou o r com a ajuda do o e uma faca aguda, e ainda com a ajuda de b jogaram o corpo no rio. Reparem que este é um momento revelador da língua portuguesa, talvez até o Holanda e o Houassis possam se levantar de seus túmulos; afinal, não é sempre que descobrimos que um substantivo masculino é, na verdade, um substantivo maldito, e que esconde um caso de amor entre duas palavras do mesmo sexo, e vizinhas: p e r".
Disse para Sarah que isso tinha um nome: - Obra-prima?, perguntou. - Esquizofrenia!, disse eu. Não levamos a sério meu diagnóstico. Afinal, ele havia me ensinado uma palavra nova. Nunca cheguei a comentar isso com ele, nem poderia. Mas gostaria, pois estava ficando chateado por, toda vez que conversava com Cássio, ele retomar o assunto das certezas. E eu tinha que engolir em seco minhas duas certezas, que não podiam ser compartilhadas. A primeira, de que ele era um corno; a segunda, de que o terceiro filho dele, de apenas dois anos, era na verdade meu filho. Ele me ensinou uma palavra, mas fui eu quem ensinou a Sarah o último verbete da terceira coluna da página 2.079 do Dicionário Houaiss: orgasmo. A verdade dói mais do que as palavras. Ambas são mortais. E prefiro, muitas vezes, me abster dessas armas, pois se amo o cheiro que emana dentre as pernas de Sarah, amo sobretudo a mim, e também a Cássio, meu primeiro, e talvez único amigo. E se algum dia meu telefone tocar e uma voz gritar inúmeras vezes a palavra opróbrio, só restará aos meus pulsos o beijo frio da lâmina de barbear.


Este conto integra o livro com o mesmo título lançado este ano pela Editora da Casa. Carlos nasceu em Trombudo Central, no interior de Santa Catarina. Estreou na literatura em 1998 com a novela “O publicitário do diabo” (Manjar de Letras), e desde então já lançou quase uma dezena de livros, entre eles os romances “A rosa verde” (Editora da UFSC, 2005), “Ensaio do Vazio” (7 Letras, 2006). Em 2009, foi contemplado pelo Edital Elisabete Anderle, do Governo do Estado de Santa Catarina, com recursos para publicar uma antologia de suas peças de teatro. Ainda em 2009, foi um dos escritores catarinenses selecionados para representar o estado na Feira do Livro de Porto Alegre. Em 2010 ,foi agraciado com a Bolsa Funarte de Criação Literária, do Governo Federal, para pesquisa e conclusão de seu romance “A mulher sem qualidades”. Desde 2007 é cronista fixo (escreve todos os sábados) dos diários “A notícia” e “O correio do povo”. Participa de várias antologias de contos.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

NOVIDADE: ANTOLOGIAS


Estou feliz com minha participação em duas antologias que saíram recentemente.
Uma delas é “Brazil, a Traveler’s Literary Companion”, editada por Alexis Levitin e com prefácio de Gregory Rabassa, Whereabouts Press, Berkeley, California. Esta traz um elenco numeroso de autores brasileiros.
A outra, “Puxando pela língua,” menos volumosa, é uma coletânea de textos literários angolanos e brasileiros, com organização e apresentação de Luísa Coelho. Foi lançada este ano pela Maza Edições, Belo Horizonte, com os autores: António Fonseca, Celestina Fernandes, Chó do Guri, Isabel Ferreira, João Ubaldo Ribeiro, José Mena Abrantes, Luiz Ruffato, Márcia Denser, Moacyr Scliar, Ondjaki, Pepetela, Rogério Andrade Barbosa, Silviano Santiago e eu.
Este livro será distribuído gratuitamente a alunos do ensino médio em Angola e no Brasil.

POESIA BRASILEIRA QUE VEM DOS EUA

CRISTINA FERREIRA-PINTO BAILEY


Os poemas a seguir estão no livro “Os homens e outras mentiras,” de Cristina Ferreira-Pinto Bailey, lançado em 2010 pela Scortecci. Escritora, tradutora literária e professora universitária, Cristina mora há mais de vinte e cinco anos nos Estados Unidos. Entre outros livros, tem: “Clarice Lispector, novos aportes críticos”, com Regina Zilberman, 2007;”Gender, Discourse and Desire in Twentieth Century Brazilian Women’s Literature, 2004; “Poemas da vida meia,” 2002; “Contemporary Short Stories from Brasil”, 1999.
Participou de várias antologias literárias.

DUELO

O silêncio grosso da tarde
liquefeito
escorre no brilho
teu olhar.
Cavaleiro de armadura
olhar de Charles Sheen
Bright Knight
shines.
Reluz teu duro olhar
frio
de quem perdeu
compaixão
com perdão
me afasto
te deixo
te afago.

No teu silêncio
grosso de desejo
escorre no peito
feito baba
caracóis em valsa
silêncio de carne
da carne.
Cavaleiro
eu te monto
e te assomo
shining
vou eu,
Amazona,
Brilho
sobre teu corpo
cavaleiro morto
venço eu
venho eu
te montar.

COOTER BROWN’S

1005 Lowerline Street.
Sento neste bar
e alguém me chama:
- Hey, sweetie!
Olho o cara atrás do balcão
um sorriso – são $ 2.30.
But it’s hard, it’s hard
even to be alone.
- Vê se some, ô cara!

I sit here in this bar
someone calls me:
- Hey, sweetie!
The bartender seems to be nice,
he offers me thesmile I need
all I want:
a warm smile
someone who knows
what a woman is all about.

POEMINHA TRISTE

Eu queria

Um mito
Um mágico
Um louco
Alguém tão feio
Que fosse lindo
Alguém tão mau
Que me chamassem
Também
Louca.
Eu queria

Um guerreiro
Um santo
Um sonhador
Alguém assim
Como o Klaus Kinski.

FICÇÃO BAHIA

Estive recentemente em Salvador, onde houve um evento em torno da nova edição do meu romance “Atire em Sofia.”
Fiquei encantada com o grande número de escritores baianos que apareceram na Livraria LDM. Entre eles, alguns cujo trabalho eu ainda não conhecia, mas passei a conhecer, lendo os livros que recebi deles.
É o caso de Carlos Barbosa, Lima Trindade (o criador da revista eletrônica Verbo 21 (http://www.verbo21.com.br/).) e Aramis Ribeiro Costa.
Trago uma mostra da prosa dos três. Um trecho do romance de Carlos Barbosa, “Beira de rio, correnteza,” lançado este ano pela Editora Bomtexto; um conto de Lima Trindade, do volume “Corações blues e serpentinas”, Editora Artepaubrasil, também deste ano; e outro conto de Aramis, do livro “Os bandidos”, lançado pela Imago em 2005. (Hélio Pólvora disse, dos trabalhos de A.R.C: “contos que são contos, na tradição dos clássicos.”
E trago mais: dois minicontos de um autor já meu conhecido, Mayrant Gallo, do livro “nem mesmo os passarinhos tristes,” três por quatro, 2010.


LIMA TRINDADE


O AMOR INCONSÚTIL

A cabeça de André tombou sobre o ombro de Antônio. Não que estivesse morto ou desmaiasse, mas, sim, como quem de súbito se prepara para o que há de vir e espera o pior. Ensaiou a palavra de amor, entreabrindo os lábios curtos e grossos, porém, recolheu-se avaro.
Antônio gostava de sentir o peso da cabeça de André reclinada sobre seu ombro, mas aquela situação de estarem os dois um de costas para o outro incomodava.
Da janela da sala soprava um vento frio de junho que tornava o branco das paredes gelo. Pequenas gotas de suor borbulhavam na testa de André.
Então, sem avisar, Antônio se virou e abraçou aquele corpo robusto, fazendo com que a cabeça do outro repousasse sobre seu colo, os cabelos longos e lisos acariciando-lhe a perna.
- Você me ama?
- O que é amar?
- É me possuir como se eu fosse um cãozinho, protegendo e alimentando...
- Então, eu não te amo.
Lúcio nada lhe cobrava, não pedia amor nem gestos de carinho. Quando falava, era sempre a respeito de coisas não-refletidas, ecos ou cacos sonoros captados pelo acaso. Você viu o último capítulo da novela das oito? Conhece a piada do...? Estou a fim de comprar um carro novo.
Curioso foi André descobri-lo na House of Games. Comprara uma ficha para o Fight of Heroes e perdia vergonhosamente. Lúcio surgiu ao seu lado e começou a lhe dar dicas. Em poucos minutos, jogava por ele. Formamos uma grande dupla. Que tal tomarmos um chope para comemorar?
- O que você viu em mim, garoto?
- Eu?
– É, tu mesmo.
­­– Ah, gostei do seu jeito.
­­­– E como é o meu jeito?
– Sei lá, é teu jeito, oras.
O frio bateu e Antônio se levantou para fechar as janelas. Pequenas folhas secas estalavam enquanto ele pisava o mármore. Era o inconveniente de se ter plantas em casa. Perto do sofá, um livro aberto oscilava de uma página para outra. André nunca lia um livro só, daí que eles se espalhavam pelo chão como migalhas esquecidas de conhecimento.
Tudo era grande demais, distante demais. André não tinha mais ilusões. Estava à deriva.
A mesa da sala era oval e nela estavam depositadas folhas de papel, uma caneta, um jogo de lápis de cor. Antônio, em pé, pegou uma folha em branco e a amassou.
- Por que compramos novos discos se eles estão sempre repetindo tudo o que ouvimos antes?
- Toni, querido!... Nada é... absolutamente igual. O novo não precisa ser completamente novo, basta que seja alguma coisa diferente.
André olhou o relógio. Em seguida, abriu mais a janela. Antônio estava agora deitado sobre o sofá e se encolhia - vestiam somente calções.
- Estou com calor.
- Eu estou com frio. Mas deixe aberta. Sentir frio é bom e nos conscientiza da nossa solidão.
– E eu, não estou aqui?
Antônio não respondeu. Ao invés disso, enfiou o nariz no estofado e tentou não imaginar os longos cabelos grisalhos de André recebendo o vento enquanto ele apreciava a vista lá fora.
- Não sou mais um garoto para você?
- Por que pergunta? Eu é que sou velho demais para você.
- Mas não era quando eu tinha dezessete e você cinqüenta, André. Ou, pelo menos, você não parecia pensar assim – disse num tom triste, mas calmo.
- As coisas mudam.
- Sim, elas sempre mudam. Hoje eu tenho vinte e cinco. Amanhã terei vinte e seis, ano que vem... – calou-se.
André fechou a janela.
- Que idade ele tem?
- O que lhe importa? Você não me ama mais, não gosta mais de sexo.
- Eu te amo mais que tudo, André! O meu amor é um amor sem fronteiras e sem remendos. O que é o sexo perto disso?
Ficaram mudos por muito tempo. Depois, André se vestiu e sem se despedir foi ao encontro de Lúcio. Ele não voltou para pegar os livros.

Lima Trindade é autor de “Supermercado da Solidão” (romance, 2005), “Todo Sol mais o Espírito Santo” (contos, 2005) e “Corações Blues e Serpentinas” (contos, 2007). Integra as antologias “Tempo bom” (contos, 2010), organizada por Sidney Rocha, e “Geração Zero Zero” (contos, no prelo), organizada por Nelson de Oliveira.

MAYRANT GALLO


A DESCULPA

O pai, antes de sair, havia dito: “Neste verão, não quero que você solte pipa.” O motivo eram talvez as torres de alta voltagem recém instaladas no bairro e que, à noite, zumbiam. Mas quando o pai saiu para o trabalho, o menino cortou as varetas de bambu, pegou cola e linha, armou o esqueleto da pipa e colou papel fino. Por fim, pôs a rabiola, amarrou a linha e saiu para o campo. Antes do fim da manhã, estava feito: o menino havia derrubado o sol, mas em meio ao caos que se seguiu – de fim de mundo em filme de Hollywood – só ocorria ao menino dizer ao pai que, ora, o sol estava morrendo mesmo, só fiz abreviar a coisa – e não foi assim que o senhor fez com a mamãe?

O BILHETE SUICIDA

“Um dia diferente: de sol, de trabalho, de dor, mas diferente, singular. Singularidade que está dentro de mim e de cada um de nós, e que, de súbito, sem motivação alguma, nos sobe e nos anima a continuar vivendo, apesar de tudo. Pena que esteja chovendo.”

Mayrant Gallo, nascido em 1962, é escritor e professor de Teoria da Literatura. Publicou “O inédito de Kafka” (2003), “Dizer adeus” (2005), “Dia sim e sempre” (2000), entre outros livros. “Ele traz para os leitores um universo próprio, inconfundível e inquietante, de situações insólitas e seres deslocados,” diz C. Ribeiro na orelha de “nem mesmo os passarinhos tristes.”
PORTAL 2001
Mayrant está com um conto na recém saída revista PORTAL 2001, editada por NELSON DE OLIVEIRA.Vejamos o que diz Nelson, na apresentação da sua instigante revista:
“Não queremos o leitor indiferente e entediado. Queremos a máxima potência da poiesis, da aisthesis e da katharsis. Por isso este portal, como os anteriores, não está disponível a qualquer curioso. Não está à venda. Não é o leitor quem escolhe o portal, é o portal que escolhe seu leitor. Aceite a dádiva. Integre-se nele com reverência e entusiasmo. Deixe-se envolver amorosamente pelo mistério e pela poesia.”


ARAMIS RIBEIRO COSTA



DONA LAURA ESTÁ DORMINDO

Letícia e a filha, Vívian, só conseguiram chegar em casa às 18 horas e 25 minutos. Vinham do salão de beleza e estavam atrasadas. Felizmente saíra tudo como elas queriam, penteados, unhas, maquiagens, estavam ambas muito bonitas e ficariam ainda mais quando colocassem os vestidos comprados com exclusividade para aquela noite. Era uma noite especialíssima: a da formatura de Vívian. Consultando o relógio, Otávio repreendeu-as, ao entrarem:
— Isto são horas? Daqui que vocês se aprontem, vamos chegar atrasados!
— O salão estava cheio — explicou rapidamente Letícia. Em seguida, correu para o quarto.
Vívian também foi direto para o seu quarto. Era a filha única do casal, e a formatura em Direito significava um notável acontecimento para a família. Otávio e Letícia viam aquele dia como uma grande conquista de Vívian, mas também como um triunfo deles próprios, pois tinham conseguido, mesmo com o sacrifício de todos aqueles anos, pagar a caríssima faculdade particular da filha. O mais importante, porém, é que isso fora conseguido sem que nada de essencial faltasse à família, da qual fazia parte a mãe de Otávio, dona Laura, que ficara viúva poucos anos após o casamento do único filho, passando a morar com eles. Era uma senhora nonagenária e enferma que já não saía do quarto, quase não andava e necessitava de cuidados médicos especiais, o que muito pesava no orçamento familiar. A formatura, com todos os seus gastos, principalmente os convites, o bufê do baile e os vestidos de Vívian e de Letícia, também representava um sacrifício financeiro considerável. Mas tudo valia a pena para que a moça, uma ótima filha, uma boa aluna, se formasse com a solenidade e a festa que ela merecia. Otávio e Letícia viam dessa forma, e aquele dia estava sendo para eles tão especial e tão feliz quanto o fora o dia do nascimento de Vívian. Otávio, pronto desde as 18 horas, impecável no seu terno azul-marinho, a gravata de seda pura também azul, os sapatos pretos lustrando, foi até a cozinha, perguntou à empregada:
— Minha mãe já tomou o mingau?
— Já, sim senhor — respondeu Elvira. — E já tomou os remédios.
No comecinho da noite, exatamente às 18 horas, dona Laura tomava apenas um prato fundo de mingau, não conseguiam que ela aceitasse mais nada. Uma noite era de maizena, outra de tapioca. Não gostava de nenhum outro. Tomava no quarto, sentada na sua cadeira de balanço, que ficava diante do televisor que era só dela, um televisor que ela fazia questão que permanecesse ligado, embora quase já não enxergasse, passando pouco depois para a cama. Dormia cedo, e dormia a noite inteira, sem incomodar. Letícia, extremamente dedicada, ajudava-a com o mingau, dando-lhe na boca as colheradas retiradas das bordas, por ser menos quente, com muito cuidado para que ela não engasgasse nem sujasse o vestido, limpando-lhe depois os lábios com um guardanapo. Aliás, era também a nora quem lhe dava banho, trocava-lhe a roupa, punha-lhe pó-de-arroz nas faces, dava-lhe os remédios na hora certa, acomodava-a à noite na cama, enfim, cuidava de tudo que se relacionasse àquela velhinha de cabelos ralos e alvíssimos, o olhar manso e quase apagado, o sorriso apenas esboçado nos lábios muito finos, e por quem ela tinha o carinho e a consideração que teria com a sua própria mãe, se ela ainda estivesse viva. Só quando estava muito ocupada, ou quando precisava sair, é que deixava a empregada tomar conta dela.
Indo e voltando ao comprido da sala, Otávio consultou o relógio, impaciente. Sabia como a mulher e a filha demoravam para aprontar-se. A solenidade estava marcada para as 20 horas, mas tinha de pensar no congestionamento do tráfego até o Centro de Convenções. Além disso, Vívian devia chegar mais cedo. Depois da solenidade, haveria o baile. Mesmo com toda a ansiedade, ao caminhar repetidamente de um lado para outro da sala, naqueles minutos de espera, Otávio repassava, com um misto de ternura e orgulho, todos aqueles anos dos estudos de Vívian, do primeiro dia de escola àquela noite suprema, que simbolizava a realização de um sonho longamente acalentado.
— Ela escolherá o que quer ser — dizia ele a Letícia, quando confabulavam sobre o destino da filha. — Não vamos interferir, nem mesmo influenciar. Contanto que se forme.
— Ela vai se formar — afirmava Letícia. — É inteligente e determinada.
De fato. Vívian mostrou-se, desde o início, uma aluna aplicada, disposta a seguir em frente. Desde cedo, também, decidiu que seria advogada. Nos anos de faculdade, foram necessários alguns sacrifícios, por vezes verdadeiros malabarismos financeiros, para que as matrículas e as mensalidades não fossem pagas com atraso. Mas ali estavam. Dentro de mais algumas horas, Vívian estaria com o diploma nas mãos.
— Dra. Vívian Ferreira Lima, advogada — murmurou ele, com orgulho, como se lesse os dizeres de uma placa na entrada de um escritório de advocacia.
Estava nesses devaneios, quando Letícia e Vívian saíram dos quartos quase ao mesmo tempo e colocaram-se diante dele, como dois manequins numa vitrine.
— Então, estamos bonitas? — perguntou Letícia com um sorriso, orgulhosa dela mesma e da filha. — Muito bonitas — concordou Otávio.
Então Letícia lembrou que as duas deviam ir ao quarto de dona Laura, para que ela as visse vestidas, sobretudo visse a neta no vestido da formatura. Pegando a filha pelo braço, levou-a. Sentada na sua cadeira de balanço diante do televisor ligado, dona Laura cochilava. A cabeça completamente alva pendia para um lado, enquanto as mãos, ossudas e enrugadas, pareciam também adormecer no regaço. Quando as duas se aproximaram da cadeira, ela abriu os olhos, a princípio um pouco assustada, como sempre acontecia quando acordava daqueles cochilos, mas, logo em seguida, fitando-as com o seu olhar manso habitual. Como fizeram com Otávio, as duas postaram-se diante dela, Letícia orgulhosa da filha, Vívian radiante. Letícia perguntou:
— Então, o que a senhora acha? A doutora Vívian está bonita para a formatura?
Dona Laura apertou um pouco os olhos, no esforço de enxergar e, sorrindo para a neta, murmurou:
— Bonita.
Vívian também sorriu, satisfeita.
— Obrigada, vó.
— A senhora parece cansada — disse Letícia, observando a sogra. — Não quer deitar?
Dona Laura fez que sim com a cabeça.
— Eu vou botar a senhora na cama — disse Letícia, desligando o televisor.
— Tchau, vó — disse Vívian, aproximando-se da avó e dando-lhe um beijo na testa.
Precisava telefonar para o namorado, dizer que já estavam saindo. Haviam combinado encontrar-se no salão de entrada do Centro de Convenções, faziam questão de ver-se antes da solenidade, nem que fosse apenas por alguns minutos. Enquanto ela deixava o quarto, afogueada, farfalhando alegremente o seu vestido novo, Letícia segurou dona Laura fortemente com ambas as mãos para ajudá-la a levantar-se. Era um ritual a que ambas já estavam acostumadas. Depois de erguê-la, sustentando com facilidade o peso daquele corpo franzino que a idade devastara, continuou apoiando-a para mantê-la em pé. Então, acompanhando o passinho miúdo e arrastado da anciã, foi conduzindo-a devagarinho até a cama, como fazia todas as noites.
Ao sentá-la na cama, Letícia voltou a achar que dona Laura estava mais cansada do que nos outros dias. Ela arfava.
— A senhora hoje está muito cansada — tornou a dizer Letícia, observando-lhe o semblante abatido, a respiração acelerada. — A senhora está bem?
— Quero deitar — murmurou dona Laura.
— Vamos deitar, sim — concordou Letícia, carinhosa. — Mas, antes, vamos tirar essa roupa, vestir a camisola.
Letícia pegou a camisola no armário e, com a destreza com que fazia aquilo todas as noites, trocou-a rapidamente. Ao terminar, notou que dona Laura tinha uma expressão estranha. Assustada, perguntou:
— A senhora está sentindo alguma coisa?
Mas dona Laura não respondeu. Sentada ainda, deixou tombar a cabeça e o corpo para diante. Letícia apenas teve tempo de segurá-la antes que ela fosse ao chão. Em seguida deitou-a no leito, chamando repetidamente:
— Dona Laura! Dona Laura!
Dona Laura estava de olhos abertos, porém completamente imóvel.
— Dona Laura! Dona Laura! — insistiu Letícia, com a angústia das situações inesperadas e terríveis.
Agoniada, pegou-a, sacudiu-a, tentou perceber nela alguma respiração, algum sinal de pulso, mas a evidência era muito clara: dona Laura estava morta. Largou-a, num ímpeto, o grito na garganta. E já ia desferi-lo, quando se lembrou da formatura de Vívian. Na sala, Otávio e Vívian apenas a esperavam para irem. A formatura de Vívian. A concretização do sonho de toda uma vida. A solenidade. O baile. O bufê. Os vestidos. Os convidados. A alegria. A emoção de tudo aquilo. A noite suprema. Tudo, tudo desfeito de um momento para o outro, como se um grande cataclismo destruísse tudo. Ouviu o grito de Otávio:
— Letícia, vamos embora!
— Mamãe, já estamos atrasados! — completou Letícia.
Não, não, pensou Letícia, aquilo não podia acontecer. Dona Laura não estava morta, estava apenas dormindo. Sim, dona Laura estava dormindo. Trêmula, como se cometesse um crime, fechou aqueles olhos parados e sem vida que pareciam fitá-la, ajeitou o corpo pequeno e flácido ao comprido da cama, na posição em que a sogra costumava dormir, cobriu-a com a sua coberta leve de todas as noites. Agora era ela quem arfava, sufocada, mal conseguindo respirar. Na garganta, no lugar do grito, havia um nó que a trancava; as lágrimas reprimidas teimavam em vir aos olhos. Rapidamente ajeitou tudo, olhou ainda uma vez o corpo de dona Laura imóvel sob a coberta, apagou a luz e saiu do quarto às pressas, encostando a porta.
Na sala, lado a lado, Otávio e Vívian, impacientes, apenas a aguardavam.
— Vamos — conseguiu dizer ela com a voz trêmula.
Otávio notou-lhe a palidez, o tremor na voz, os olhos vermelhos no esforço de conter o choro.
— Você está bem?
Ela fez que sim com a cabeça. Sentia uma vontade enorme de abraçá-lo, de soluçar no ombro dele. Otávio atribuiu aquele estado de Letícia à emoção pela formatura de Vívian, sentiu-se também emocionado.
— Vamos — disse ele, abrindo a porta da rua.
— Espere um pouco — disse Letícia, arquejando, a garganta em fogo.
Foi até a cozinha, bebeu um copo d’água, procurando acalmar-se. As mãos tremiam, toda ela tremia. Antes de sair, avisou à empregada, com voz sumida:
— Já vamos. Dona Laura está dormindo.
— Sim, senhora — respondeu Elvira, sem olhar para ela, sem largar o que estava fazendo.

Ainda muito jovem, Aramis Ribeiro Costa publicou semanalmente fábulas, contos e pequenas novelas na página infantil de “A Tarde”. Foi, nessa época, colaborador desse jornal também em outras páginas, com artigos, crônicas, contos e poemas. Sua ficção curta e seus ensaios têm sido publicados em antologias, jornais e revistas, e seus poemas, particularmente os sonetos, amplamente reproduzidos em blogs, por todo o Brasil e em Portugal. É diplomado em medicina e Letras Vernáculas com Inglês. Pertence à Academia de Letras da Bahia. Entre os seus livros, estão: “Quarto escuro e Espelho partido”, poemas; “A nota de Rosália”, “A assinatura perdida”, “O Mar que a noite esconde”, “Baú dos inventados”, “Os Bandidos” e “Reportagem urbana”, contos; “O Fogo dos infernos” e “Episódio em Curicica”, novelas; “Uma varanda para o jardim”, romance, e outros títulos de literatura infantil.


CARLOS BARBOSA


BEIRA DE RIO, CORRENTEZA

(TRECHO)

“A correnteza. Gero sabia bem da correnteza do rio. Experimentara sua força por mais de uma vez. No Bom Jardim da Rica Flor, não havia quem não possuísse história de enfrentamento, superação ou sucumbência ante a força e a imprevisão da correnteza do rio. A correnteza era ser mutante. Durante o ano, alterava velocidade e empuxo em acordo com o volume das águas do rio; era assim em qualquer rio, por certo, mas no Velho Chico, no rio de Gero, a correnteza possuía qualidades de mando; era imperiosa, manhosa e de caprichos curvilíneos e redemoinhados. Quando as águas subiam e se avermelhavam, a correnteza era inteira, total. Todo o rio era correnteza célere, urgente e desrespeitosa. Barcos e canos mal aportados, casebres ribeirinhos, barrancos escavados, toros e plantas, todo treco deixado à solta, a correnteza arrastava rio abaixo sem apelação. Inclusive animais de criação e silvestres. E também o bicho-homem, de mamando a caducando, pois, como se sabia bem no Bom Jardim, quando mais a pessoa bem nadava mais a correnteza apreciava levá-la consigo para sumidouros. A correnteza se amansava no período da seca. O rio deslizava espelho ao passar pelo Bom Jardim da Rica Flor. Mas aos ribeirinhos não escapava que ela escondia sempre propósitos encantatórios e arrastantes: era traiçoeira, na essência, a danada. Era nessa época que se especializava no disfarce da quietude. A correnteza se ausentava, o rio se tornava bucólico e o banho se impunha pelo atrativo do frescor das águas e pelo calor abusivo do ambiente ribeirinho. Nesse cenário, muitas alminhas se desgarravam de corpos, no repentino de um escorrego nos arrecifes limosos ou na lama do fundo, desequilibravam-se e eram tomados pela até então insuspeitada e ausente correnteza. A cada episódio enfrentado nas águas do rio, Gero sentia mais respeito pela correnteza. Mais que um estado, condição ou possibilidade, pressentia nela uma entidade independente do rio.”

Carlos Barbosa é jornalista e escritor. Seu romance “A dama do Velho Chico” (Bom Texto, 2002), foi selecionado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação para o Programa Nacional Biblioteca Escola, 2009.