segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

SIDARTA DO FIM DE ANO

PINTURA E POEMA DE CADU LACERDA


Esperança é a primeira que morre
Na transformação poética da cor
Relega ao próximo vidente
A dor de renascer
Sol, lua, estrela
A Terra, o vento e o ar
É a luz do firmamento
Só a quem eu devo amar

TRÊS CONTOS DE SONIA COUTINHO

Um dia notável
Depois de quase uma semana reclusa, no feriado ela decide sair, afinal, para ir ao supermercado. Mesmo porque isto já se tornou inevitável, não tem mais nada em casa para comer.
Todo esse tempo preferiu evitar a rua com medo de tiroteios entre policiais e traficantes em fuga das favelas próximas, ocupadas.
Como não tem estoque de comida, ficou até sem leite nem pão.
Não há como preparar sequer o café da manhã.
E, sem café, ela não funciona.
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Pouco depois, passando com seu velho carro pela Borges de Medeiros, vê que há pouquíssima gente caminhando ou correndo pela calçada próxima da lagoa.
Inteiramente incomum, para um feriado.
O medo de balas perdidas deixou as ruas quase desertas.
Não foi disparado um só tiro, mas muita gente ainda acha que pode acontecer.
Claro que também está chuviscando, mas só um pingo ou outro, muito de leve. Normalmente, isto não assustaria os caminhantes.
Ela também sentiu muito medo. Mas agora já está calma, então segue na direção do Leblon.
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Estaciona, como de costume, no segundo piso do supermercado e, sempre evitando elevadores, desce por uma rampa até o térreo, vai diretamente para o café.
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Compra a comida em pequenas quantidades, porque assim ela própria pode carregar, não precisa de entregador.
E também porque adora o supermercado e, com isso, tem motivo para vir aqui quase todos os dias.
Passou a conhecer muitos dos funcionários, isto ameniza a solidão, traz uma sensação de pertencer.
Lembra que, já faz algum tempo, nenhum dos seus amigos aparece em seu apartamento.
Está sentindo falta.
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Quantos anos faz que não tem marido? Até perdeu a conta. Filho, nunca teve, e os parentes que lhe restam moram em outro estado.
Sei que sou esquisita, pensa, levando a bandeja com o café e dois pães de queijo até uma mesa. Mas, pelo menos, como todas as mulheres, adoro ir a shoppings e supermercados.
Eles lhe garantem uma certa alegria.
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Este supermercado mudou de dono e passou algum tempo fechado para reformas.
Agora reabriu, e ela está gostando do seu novo novo aspecto.
Principalmente porque não se desfizeram do piano que fica no café. Espera que o mesmo velho ainda venha, às vezes, tocar nele antigas melodias americanas.
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Faz suas compras de alimentos com a segurança de uma Sobrevivente. Depois, pega para levar uma revista de que gosta muito.
Pensa, com satisfação, que depois do almço ficará deitada em sua cama, recostada numa almofada, folheando a revista.
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Logo ao chegar ao seu apartamento, vai ao computador ver se há e-mails para ela – nenhum.
Meio triste, dispõe-se a telefonar para alguém, mas neste momento ouve os estampidos: PAM. PAM. PAM. PAM.
Meu Deus, será que estão acontecendo tiroteios, afinal? Corre para a varandinha e então vem o alívio. Ainda há estrelinhas subindo, foram fogos de artifício que alguém soltou, em comemoração ao Quinze de Novembro, à proclamação da República.
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Pouco depois, cumpre seu projeto e se deita em sua cama, ainda com a roupa da rua.
Recosta-se numa almofada e fica folheando a revista nova.
É quando alguém toca a campainha da porta.
Meu Deus, e o porteiro não avisou a chegada de ninguém!
Deve ser ele! Nem espia pelo olho-mágico para ver quem é, tem certeza de que é o Brad Pitt.
E então, a surpresa:
- Robert! Robert Pattinson! É você!
É a primeira vez que ele vem; mas, mal ela abre a porta, Robert vai entrando, sem cerimônia.
Afrouxa o nó, tira a gravata, depois o paletó, os sapatos e as meias, vai pondo tudo em cima e ao lado de uma poltrona.
Fica apenas com a camisa social aberta ao peito e as calças jeans.
- Vamos para a cama – diz.
E, vendo seu ar inseguro – é a primeira vez com ele – declara:
- Não se preocupe, Sei do que você gosta, querida. Os outros já me explicaram tudo. Ficaremos apenas um ao lado do outro, nos abraçando e acariciando como se fôssemos irmãos. Você não quer?
Mas claro que sim, ela quer.
O que ele disse corresponde inteiramente à verdade. É isso mesmo que ela costuma fazer com todos eles, quando aparecem.
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Antes de dormir, ela pensa: hoje, 15 de novembro de 2011. Um dia notável. Porque é ...exatamente hoje. Porque é... exatamente agora.

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O que lhe resta da vida


Quase todo dia ela sai do Catete e vai a um shopping elegante, na Zona Sul do Rio. Tem mais de 60 anos, não precisa pagar o ônibus. É um grande prazer para ela ir a esse shopping - e tudo fica quase de graça. Vive em busca de coisas assim, em seu esforço para “aproveitar o que lhe resta da vida”, mesmo com o pouquíssimo dinheiro da sua aposentadoria.
Desce do ônibus exatamente às dez na frente do shopping. É a hora em que ele abre. Uma pontualidade que lhe vem da repetição diária do percurso. Vê que há uma porção de gente já à espera para entrar. O Natal está próximo e o o shopping anda muito cheio.
Entra junto com as pessoas aglomeradas, quase se acotovelando com elas, e começa a caminhar pelos corredores do térreo.
Este andar tem mais restaurantes do que lojas. Mas aqui fica a banca sofisticada onde ela sempre compra o jornal e aproveita para dar uma olhada nas revistas. E aqui fica também a lanchonete onde todo dia ela toma um café pingado e come um pãozinho de queijo. A balconista coloca a xícara na bandeja com um biscoitinho no pires e mais um pequeno copo plástico com água gasosa. Ela mesma carrega a bandeja para uma das mesas.
Bebericar o café, dando pequenas mordidas no pão, traz-lhe uma sensação de imenso relaxamento. Quando acaba, sobe a escada rolante para o segundo andar. Aqui, sim, há várias vitrinas interessantes.
Entra numa loja de produtos femininos orientais. Gosta da bijuteria exótica, que espia longamente. Quando a moça lhe pergunta se pode ajudar, ela responde que “se precisar de alguma coisa te chamo, querida”.
Continua a caminhar, mas já se sente um pouco cansada. Não é mais tão fácil para ela como antes percorrer os três andares do shopping. Segue um pouco mais devagar e logo vai sentar-se num sofá próximo.
São muito convenientes esses conjuntos de sofás e poltronas de couro falso, mas bonito, colocados, em todos os andares, no corredor mais largo onde ficam as escadas rolantes. Permanece sentada quase meia hora num sofá preto, sabe que ninguém a tirará daí.
Não tem o menor medo de que os seguranças vestidos com bons ternos escuros a incomodem. Fica olhando um deles. São uns sujeitos grandes e mal-encarados, sempre de prontidão nos cantos mais discretos.
Não tem motivo para temer. Não é uma compradora e sim uma penetra, que vem mais para espiar roupas, objetos, pessoas. Mas às vezes até que leva as coisinhas baratas que vai descobrindo.
E vem sempre vestida inteiramente de acordo, cuida muito disso. Seu dinheiro é mínimo, mas considera esta uma despesa indispensável, mesmo que sacrifique a comida.
Não faz mal repetir roupas, mas precisam ser de boa qualidade, neutras e informais. Assim se vestem as mulheres que moram ali perto e quer ser confundida com elas.
Esse aspecto minuciosamente correto lhe garante a aceitação. Passa despercebida. Poderia ficar aí sentada horas, folheando seu jornal. Mas prefere continuar a caminhar, e pouco depois se levanta. É quando vem a boa surpresa do dia.
Numa bancada de venda de produtos para surfistas, vê, entre camisetas e relógios, pequenos chaveiros diferentes e engraçados. Adora chaveiros, tem uma porção deles enfiados numa grande argola de plástico azul, que carrega sempre na bolsa. Aproxima-se e fica manuseando os chaveiros, sob o olhar amável da vendedora sorridente.
Seu coração dá um salto, quando ela encontra um chaveiro que é uma pequena sandália havaiana azul, esmaltada em cima, com borboletas amarelas.
- Quanto é este? – pergunta à moça.
E ouve a maravilhosa resposta:
- Dez reais.
Meu Deus, dez reais, que bom, é barato, ela pode levar.
Puxa sua carteira da bolsa, tira de dentro os dez reais, paga, diz que não é preciso embrulhar o chaveiro e volta para o sofá com ele. Quer transferir imediatamente para o chaveiro novo as chaves do seu apartamento, que estão em outro, já velho, meio enferrujado.
Voltará para o Catete com mais um dos seus pequenos objetos dispensáveis, às vezes sem nenhuma utilidade, mas que gosta tanto de comprar. Maravilha!
Claro que está velha. Claro que é pobre. E claro que passará mais um Natal e fim de ano sozinha: seu marido morreu, nunca teve filhos, seus pais também morreram e o que resta da sua família mora em outra cidade, muito longe.
Mas, neste momento, ela esquece de tudo isso. Ganhou seu dia. Já pode ir para casa. Decide não comer um sanduíche, como almoço, no shopping mesmo.
Preparará alguma coisa para almoçar quando chegar em casa, assim o dia sairá mais em conta.
Fica mais algum tempo no sofá, depois se levanta, adiante joga o chaveiro velho num recipiente para lixo, e segue para a escada rolante, a saída do shopping, chega ao ponto do ônibus.
Sabe que, com seu novo pequeno objeto para olhar e apalpar, com seu brinquedinho, não haverá nenhum problema pelo resto do dia.
Durante a tarde inteira, enquanto não começam as novelas que a anestesiam até a hora de dormir, evitará aquela angústia desesperada, não pensará outra vez em se atirar pela janela e não precisará de nenhuma dose extra do seu remédio forte.

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Presente, ausente


Acordou, saiu rapidamente da cama.
Foi até a cozinha, pegou o interfone, ligou para a portaria do prédio. A resposta do porteiro veio rápida: não, ninguém deixara pacote algum para ela.
Desligou com um nó na garganta, os olhos cheios de lágrimas. Caminhou vagarosamente, encurvada, para sua cadeira de balanço.
Mas que idiota tinha sido. Claro que já deveria saber. Era tarde demais, estava com 79 anos.
Sim, tardíssimo! Como chegara a imaginar que ainda seria possível? Tinha de encarar a realidade. Não havia como fugir disso.
Ninguém lhe daria outra vez, nunca mais, um ursinho de pelúcia de presente de Natal.

ESTES TRÊS CONTOS SÃO INÉDITOS

TODA A VERDADE SOBRE A TIA DE LÚCIA

Uma resenha de Rubem Mauro Machado

A arte de Sonia Coutinho

O universo dos contos de Sonia Coutinho é concentrado e fechado, com freqüência opressivo, girando sempre, como já salientei em outra ocasião, em torno de uma personagem única, bem determinada (em mais de um sentido do termo): a mulher de classe-média, já experiente e vivida, dedicada ao trabalho intelectual e/ou artístico, que veio buscar na vida da cidade grande – no Rio de Janeiro – a independência, o livre mover-se, o escape da armadilha da mediocridade provinciana. E que por seu orgulho paga o alto preço da solidão. Esta é lamentada; mas é de se duvidar que esse alter ego tenha qualquer dúvida sobre a decisão, dura mas inevitável, que determinou o seu modo de estar no mundo.
O que poderia ser uma leitura penosa, no entanto, se converte em prazer, pelo talento da escritora, que nos leva a deslizar com a suavidade de um barco pelo seu texto ágil, de frases econômicas e certeiras, temperado em alguns momentos por uma pitada de humor ou ironia.
Qualidades essas todas presentes nos 20 contos, alguns muito curtos, reunidos no seu último livro Toda a verdade sobre a tia de Lúcia, que acaba de ser lançado pela 7 Letras.
Alguns deles, como os dois que abrem o volume de apenas 90 páginas, Invisibilidade e Chocolate amargo, estão com certeza entre os melhores que a autora já escreveu, oscilando entre a melancolia e a fantasia que liberta.
Tenho antipatia pessoal por minicontos em geral. Mas gosto de contos curtos, de alta concentração, de que Violência, contido em apenas uma página, é belíssimo exemplo. O conto-título por sua vez explicita bem a temática dominante neste e em outros livros. Outros contos ajudam a compor um mundo de fragmentação e carência, de amores frustrados ou fugitivos. Nele a personagem de muitos nomes busca o tempo todo encontrar, ou dar, um sentido ao absurdo da existência. “Todos acabamos descobrindo o que se costuma chamar de “o grande mistério da vida”. Mas é sempre tarde demais.” resume em Descoberta. No entanto, a arte, exercitada ou apenas referida, permeia todo esse pessimismo radical. É como se Sonia afirmasse que, por meio da atividade artística, incluindo-se aí a literatura, somos capazes de transcender a imanência que nos ata, somos capazes de nos justificar, e assim de algum modo obter a gratificação que redime todas as agruras e limitações inerentes ao curto percurso que toca a cada um neste planeta insignificante, mas que ainda assim guarda tudo o que amamos.

ELLA, PRESENTE DE JOÃO UBALDO



Ubaldo lembrou que ouvimos essa música ainda em Salvador. E me mandou por e-mail...

UM CONTO DE ELIAS FAJARDO

Tela de Neo Rauch


O encontro

Nem sei se estou morta ou viva, dormindo ou acordada, parece que vou pra um lugar encantado. Me sinto assim quando na cama com ele. Estou falando de um cara muito especial, o Carlos, que sabe tirar leite das pedras, se é que você me entende. Mas quando faço amor com ele penso em outros (e outras) e isso aumenta a excitação e a sensação de me sentir traindo, sei lá, e ao mesmo tempo preservando um terreno só meu, que ninguém pode alcançar. Toda vez que vou pra cama carrego tudo que já fiz e imaginei fazer nela. Em cada beijo, todos os beijos. E assim por diante, se é que você está me entendendo.

Onde eu estava com a cabeça quando fiz aquilo?, pergunta-se Rubem. Nem dá pra dizer como foi. Todos os começos a gente devia escrever num diário ou apenas no diário imaginário da fantasia. Não registro nada, por medo de que alguém descubra, e também por achar que nada do que possa registrar vai ser tão intenso (ou bem escrito) quanto o que vivi. Não sou nada, ou melhor, sou 39, 42 ou 25, dependendo da ocasião.

Profissionalmente, sou uma mulher meio realizada. Meio porque sempre que me empolgo, minha amiga Mara me diz: “Menos, Norma, menos.”
Dou aulas de português e literatura. Tem horas que acho isso o máximo: mostrar pra rapaziada o conto “O espelho”, de Machado de Assis, e dizer que ele “ se desenvolve em torno de uma teoria da alma que supõe um ceticismo radical frente à constituição imaginária e alienada do eu, suportada pelo vazio e reposta pelo comércio especular das aparências.”


A amizade pra mim é algo muito precioso, mais valorizado até do que o amor. Parece que quase todos os homossexuais pensam assim, mas será que sou mesmo um homossexual? Já fiz com mulher, homem, gente grande, coroa, criança, bichos. Sou como todo mundo é, só que não confessa. Nem admite. Eu mesmo não admito, se me disserem ou me cobrarem a minha vida pregressa, nego tudo que acabei de fazer indagorinha e que me deu muito prazer. Ou não.

Imagina, tou brincando. Você acha que uma mulher como eu, professora do segundo grau do município, enfrentando uma rapaziada que não quer nada com nada, vai falar difícil em sala de aula? Começo sempre do início: digo a um bando de mais de trinta moços e moças desinformados, mal nutridos, desinteressados, quem foi Machado de Assis, porque o que ele escreveu nos interessa e assim por diante. Tento ser como o elefante do Carlos Drummond de Andrade: toda manhã juntar os cacos e recomeçar.
Tudo bem, a profissão não é nada. O mais complicado é a vida amorosa, ainda mais agora que a minha melhor amiga me confessou...
péra aí... xii, tocou o telefone. Depois continuo.

Estou aqui tentando me entender comigo mesmo, não sei se isto é um diário, uma confissão ao gravador, ao computador: o que interessa é rasgar o véu da fantasia. E já que me rasguei todo, vou ser mais claro: o sexo não é só carnal, são sentimentos, idéias, desejos trocados e desencadeados. Tenho muitos amigos e um namorado, mas não sei o quê nem a quem quero, a quem entrego meus melhores pedaços. Estou só como uma pedra.

A janela deixa entrever uns telhados, a Igreja da Glória se espreguiça entre a neblina que cobre parte do morro. Vento frio e sol quente de inverno brincam de entrar e sair no apartamento de Norma. “Não sei se vou à praia ou se pego um cinema. Vou ligar pra Mara e dizer que não quero mais saber desta triangulação, deste ménage à trois mal resolvido, não sou mulher de deixar pra amanhã o que posso fazer hoje. Ou sou?”

Rubem chega à janela do seu apartamento no centro de Juiz de Fora a tempo de ver os últimos raios do sol se pondo atrás dos edifícios, uma revoada de pombos, freadas no asfalto. O carrilhão da igreja badala as seis da tarde.
Espanto, sombras,
ângulos agudos, crepúsculo.
Rubem garante a si mesmo que não provocou, apenas foi um participante. O namorado nos braços de outro, e com o seu consentimento. A gente sempre fantasia, imagina mil detalhes, mas quando acontece parece que nem foi real: mais uma cilada da imaginação desenfreada. Não era bem isso que ele estava pensando em curtir. Nem eu.

Mara entra na casa de Norma: uma lufada de vento, um pequeno furacão de cabelos ruivos e fala solta. Amigas do peito e de dividir tudo. Até o namorado, pensa Norma, desconsolada. Carlos até que gostou da brincadeira, mas ela, mesmo, não sei. Quanto mais moderna e contemporânea a gente se torna, mais conservadora por dentro. Quem diria que eu pudesse me chamar assim. Estou mexida, desarvorada, ora, isso não passa de um ataque de ciúmes bobo, adolescente.

“todos os temas
um tema:
o tempo”
escreve Rubem no seu lap-top, assim mesmo sem maiúsculas, uma tentativa de hai-kai.

Norma: “Você fica aí andando de um lado pro outro, porque não atende o telefone?”
Carlos: “Ué, mas o telefone não tocou”.
Norma: “Não tocou porque eu ainda não liguei, ora”
Estava tudo tão bom, nós dois no maior amor, escrevendo com pilot no banco do parque: “Norma e Carlos”, e agora é como se me tivessem tirado o tapete debaixo dos pés. Tenho de culpar alguém, talvez eu mesma, com todo meu liberalismo de butique, mania de achar que posso tudo. Não posso porra nenhuma! E dá uma vontade danada de implicar com o Carlos, criar caso por conta de pequenas coisas.

O mais difícil não é o que fazer, mas o que não fazer. Se temos uma relação boa, de confiança recíproca e intensa sexualmente, qual o problema se alguém se mete na nossa cama, de repente? As relações abertas, ainda que fugazes, iluminam a mesmice da vida. Mas não é tão simples. Ando cansado do sexo fortuito, todo mundo faz com todo mundo, quero alguém pra chamar de meu. Mas como, se, mesmo numa cidade conservadora como esta, ninguém é de ninguém?
As pessoas tremem de frio, enfiam as mãos nos bolsos do casaco, uma lufada de inverno percorre a rua Halfed. Bancos, loterias, lojas de móveis e eletrodomésticos, lojas de CD com ruído de duplas romântico-sertanejas. E um coração solitário que olha pela janela do quinto andar.

Vou dizer pra ela que não quero dividir meu homem. Carlos é meu, e ninguém tasca. Esta coisa sueca de partilhar namorado não combina com meu temperamento latino. Mas não quero ferir Mara, minha amiga, minha amada companheira.
Norma: Mara, toma mais uma cerveja, minha linda, depois descemos pra comprar mais.
Mara: Menos, amiga, menos. Assim a gente não consegue estudar pro concurso.

Na academia de ginástica, no meu primeiro dia! Putzgrila, eu tinha que fazer merda! Olhei demais prum coroa que não era nem essas coisas e ele me encarou feio: “Tás querendo o quê, meu! Pára de olhar pro meu pinto.” A ducha fria gelou o peito de Rubem.
Não preciso disso, tenho namorado, mulheres com que transo de vez em quando, pra que ficar nessa fissura? Não quero agir como bicha vagabunda, posso ser expulso da academia!
Eu queria deitar na cama e escolher uma palavra pra ficar repetindo, repetindo até que o som se descole do sentido e tudo pareça um outro universo, diferente desse onde só faço dar com os burros n’água.
Rastros de conversa na esquina.
Tique taque do relógio na noite.
O canto do canário ilumina a madrugada.
Carlos toma um valium e tenta dormir.

“Se é que você está me entendendo, eu não quero ser palmatória do mundo.”
“Mas Norma, o que é palmatória?” pergunta Mara, meio falsa, meio a sério.
“Palmatória é uma coisa que nas escolas de antigamente, as professoras usavam pra dar porrada nas mãos dos alunos!”, e Norma dá umas palmadas na bunda da amiga que morre de rir.

João chega em casa com a pulga atrás da orelha. Sente que o outro o olha de banda, mas não dá o braço a torcer. O bom cabrito não berra.
“Vamos ao cinema, Rubem?” Está passando um filme com o Leonardo de Caprio.”
Um Rubem de olhos lânguidos o enlaça apaixonadamente: “Se ele soubesse quanta doideira se esconde aqui nesta cabecinha...” E emenda: “Vamos sim, cara, tem uma sessão daqui a pouco.”

Norma com uma sensação de dor de corno, e ao mesmo tempo percebendo um certo encanto no que aconteceu. Os três estavam bebendo na Lapa e, aos poucos, foram se soltando. Lembrou-se do Peter O’Toole que dizia ser bonito dependendo do ângulo de luz. Carlos é assim também: um sujeito que fotografa bem, comprido, anguloso, esguio como bambu ao vento, com uma cara marcada de espinhas mal curadas. E Mara também estava especialmente bela, com um colar vagabundo de contas de madeira comprado no camelô, batom carmim nos lábios grossos, olhos cor de jabuticaba sem pintura. O que a gente leva da vida é a vida que a gente leva, pensa Norma, e não consegue mais parar de rir. Vamos esticar lá em casa, propôs Carlos, e os três vão andando tropegamente para o apartamento na rua Riachuelo, oitavo andar, uma única janela que se abre para os telhados vizinhos e um visual de final do século XIX, uma torneira pingando e a pia da cozinha cheia de louça suja.

João acorda tonto. Bebeu demais no bar Marraquech, não segurou as pontas de duas caipirinhas e ainda pediu uma terceira. Depois deu um bolo em Rubem, deixou o amigo esperando sem dar notícias e se enfurnou em casa, disposto a dormir, mas sem conseguir. Aos poucos vai relaxando, a relação com Rubem o incomoda. João ainda não desistiu de ser hetero e sonha com namoradas para dar uma satisfação a si mesmo, à família e à sociedade.
Melhor tentar dormir do que encarar a noite de Juiz de Fora, tão desanimada quanto um final de festa. Uma sensação boa vai invadindo João: imagina que, por dentro de suas têmporas, estão presos dois elefantes, um de cada lado da cabeça. Os elefantes vão empurrando a pele e os ossos com as trombas, e o crânio vai se distendendo; o cérebro vai sendo penetrado pela água limpa do regato que lhe irriga também as veias intumescidas e o couro cabeludo já um pouco sem cabelos. Imagina as mandíbulas presas ao resto da cabeça por dois parafusos que ele vai afrouxando, desenroscando, então o queixo cai, a garganta se solta, uma baba escorre pelo canto da boca.

Mara detesta que lhe acariciem as costas. Sente cócegas, irritação, sei lá. Mas adora que lhe passem a mão na frente. E por aí vai. Norma já nem sabe de quem é a mão que lhe percorre os seios. Os três juntos numa cama estreita pra tanto corpo, santíssima trindade da sacanagem e do tesão. Carlos vem por cima, mas não se importa de ficar por baixo. Norma prefere o meio, vira sanduíche entre a amiga e o namorado. Risos, beijos, chupões, pernas e braços entrelaçados entre um gole e outro de cerveja. Mulher fazendo papel de homem e homem de mulher, Carlos sendo penetrado pelos dedos das duas e Mara sendo enrabada pela amiga. Todos os gatos (e gatas) são pardos na imprecisa madrugada. Quem gozou, gozou, quem não gozou, gozasse. Bocas, sexos, coxas, suspiros. E um sono reparador.

João acorda lembrando de um episódio que preferia esquecer. Estavam ele, um amigo, uma garota, uma garrafa de cachaça e vários baseados num wolks, numa estrada vicinal. Conversa vai, conversa vem, mais um trago, mais um tapa, mais um aperto escondido. Carícias de homem se confundem com as de mulher, uma desconfiança percorre cada um dos participantes. A moça quer que lhe dêem logo o dinheiro que combinaram antes de avançar mais, o amigo quer João, mas acha que deseja a garota, e ele, João, quer apenas dar mais uma bicada na cachaça para ver se acha algum sentido num programa tão insensato. As sombras das árvores atravessam a estrada, são longos dedos negros que se movem, surgem e desaparecem. Uma coruja brilha seus olhos diante dos faróis, morcegos cruzam a luz emitida pelo carro, mais um aperto, risos nervosos, nenhum dos três parece se divertir com a situação, mas é preciso mostrar que estão a fim, ninguém quer desistir primeiro. João arrisca um beijo no amigo, que foge com a boca, finge nojo. A moça ri a bandeiras despregadas, desprende o fecho do sutiã e deixa sair os peitos meio murchos, que João acaricia. O amigo também quer ver mais de perto e tira as mãos do volante. O carro começa a balançar, o amigo não vê a curva, não faz a curva e o carro entra pasto a dentro, mergulha no rio. João, o único que sabe nadar, sobrevive e vai embora sem socorrer o amigo e a garota.

Mara, Carlos e Norma acordam com gosto de cabo de guarda chuva na boca. Quero ir-me embora desta cama, desta situação o mais rápido possível, se é que vocês estão me entendendo! exclama Norma, tentando vestir a saia. Carlos está feliz, sente-se dono de um harém, quer mais sexo, mais carícias, dormir abraçadinho. E Mara não quer nada, não sabe se ri ou chora. Nos metemos numa canoa furada, eu pelo menos estou me sentindo cheia de furos, de desacertos, não gostei nada, e não vou me fingir de moderninha dizendo que foi bom, diz Norma, olhando de cara a decepção refletida nos olhos dos dois parceiros. Um sol quente de manhã entra pela janela, a empregada da vizinha liga o rádio alto, na rua lá embaixo um alto-falante oferece pamonha quentinha. Agora não adianta moralizar, pondera Carlos, o que está feito está feito, o que não tem remédio remediado está. Mara acende um cigarro, não diz o que sente nem o que deixou de sentir. A fumaça envolve três cabeças descabeçadas em cima de uma cama desarrumada.

João desconfia que foi por causa do desastre de carro que ele aceitou, sem resistência, fazer sexo a três com Rubem e um desconhecido que eles pegaram na rodoviária. O cara, cabreiro, não queria ir, mas Rubem o convenceu com uma boa conversa e alguns reais a mais. E foram os três pro apartamento de Rubem com um certo entusiasmo inicial, mas que, depois da primeira cerveja, desandou. Mãos, pernas e bocas se tocam e se desencontram. Rubem tenta descontrair botando um cd de jazz mas não houve jeito. O sujeito sai porta afora feito cachorro que quebrou o pote, mergulha na neblina do inverno mineiro enquanto Rubem e João olham pra cara um do outro.

Não agüento mais esta história, vou passar uns dias no interior, resolve Norma. E pega um ônibus para Juiz de Fora, onde vai se hospedar na casa de uma prima. O ônibus corre pela BR e as cenas se misturam na cabeça de Norma. Nós três na cama foi ótimo, nunca tinha tido tanto prazer, meu namorado e minha amiga, os seres que mais amo entrando e saindo de mim. E porque não? Se eu não fosse tão culpada ia achar é bom, querer mais. O ônibus acelera. Norma e a paisagem fora e dentro de si mesma. As árvores, o rio, a montanha cheia de lanhos e água escorrendo depois da chuva. E ela, cheia de sentidos e sentimentos, perdida e achada, desencontrada, mas feliz. Liga pra Carlos pra dizer tudo isso, mas o celular dele está fora de área.

Rubem e João se encontram na rodoviária de Juiz de Fora. Vão esperar um amigo que vai chegar do Rio de Janeiro. Os dois andam ressabiados, mal se olham, poucas palavras e silêncios longos. Muita gente saindo do ônibus e eles não encontram o tal amigo. Norma tenta sair do ônibus, pra que pressa, meu Deus, eu vim descansar, desce a escada e a mala despenca de suas mãos e vai cair no pé de João, que disfarça a dor e dá um sorriso amigável pra morena:
“Não tem problema, moça, sua mala está em boas mãos”. João, Rubem e Norma saem conversando: nunca se viram antes, mas parecem velhos amigos. Rubem empurra a mala de rodinha de Norma e os três tomam um táxi para a rua Halfed.

POEMA DE FERNANDO DA ROCHA PERES


VISAGEM

Amo os objetos
os mais simples,
toscos e velhos,
inusitados sempre.
Uma calçadeira.
Um maçarico.
Uma cadeira de barbeiro, e tudo
de madeira ou ferro.
As coisas úteis
que o tempo estagnou
carregam lembranças.
Todos, na penumbra,
destilam uma poeira
interior e ensinam
que a vida permanece
no tateio do usado,
de uma natureza outra.
Os objetos nos espreitam
como se fossem corujas
dentro de casa.

A ESCRITA COMO NECESSIDADE DE VIDA

Entrevista de Sonia Coutinho a Lima Trindade



Sonia Coutinho nasceu em Itabuna-BA. Aos oito anos passou a viver em Salvador e, em 1968, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se tornou jornalista, tradutora e escritora. Traduziu cerca de cem livros. É uma das mais importantes escritoras brasileiras em atividade. Conquistou o Jabuti por duas vezes, o Status, para literatura erótica, e, pela Biblioteca Nacional, o Prêmio Clarice Lispector de contos. Participou de diversas antologias no Brasil e no exterior e teve quase toda a sua obra reeditada pela 7Letras.

Lima Trindade: Como se deu sua aproximação com a literatura, quais os primeiros livros que leu? Gostaria que falasse um pouco de sua formação como escritora. Você cresceu num ambiente de leitura e estímulo ao pensamento?

Sonia Coutinho: Meu pai era um intelectual. Formado em Direito, tornou-se político e foi eleito deputado estadual em três legislaturas. Escrevia poesias e traduziu poemas, por exemplo, de Baudelaire. Tínhamos muitos livros em casa e bons livros. Desde muito pequena eu adorava ler e pulei das histórias de fadas para os livros adultos do meu pai. Lembro de ter lido, ainda menina, os contos completos de Guy de Maupassant e um livro de contos de Katherine Mansfield, que amei: “Felicidade”. Meu irmão também é um intelectual, embora não da área de literatura e sim de ciência política. Meus primeiros contos foram as redações de português, na escola. Os professores me encorajavam muito. Mas, fora desse belo quadro que acabei de traçar, não posso dizer que tenha recebido estímulo para me tornar uma escritora. Sofri uma grande pressão, por parte da família, para não abandonar os modelos estabelecidos. Houve muitos e dolorosos conflitos. Mesmo assim, continuei e continuo escrevendo. O jornalismo e a tradução, minhas duas atividades profissionais, acho que foram muito importantes em minha formação de escritora. Também, com certeza, as viagens que tive a oportunidade de fazer e o grande número de pessoas do meio literário e artístico com as quais entrei em contato, nesse percurso. O lado pior para a literatura, em tudo isso, é que nunca tive o tempo necessário e ainda não tenho, para me dedicar detidamente a ela ou a outras atividades artísticas que me dão prazer. Mesmo a esta altura, preciso continuar traduzindo para sobreviver.

LT: A mudança para o Rio de Janeiro, em função do contato com editores e escritores, favoreceu sua carreira literária, deu-lhe maior visibilidade? Considera que possa ter causado também algum tipo de perda no plano artístico?

SC: Não vim para o Rio apenas em função desses contatos que você menciona. Na Salvador dos anos 60, eu vivia uma situação pessoal que sentia como sufocante e limitadora, em vários planos. Vir para o Rio e fazer jornalismo na grande imprensa foi uma experiência muito enriquecedora para mim. Alarguei minhas fronteiras humanas. Claro que o Rio também foi duro, sob vários aspectos. Mas acho que não havia outra saída e que o saldo foi positivo. Hoje, tudo mudou e não sei se uma atitude como a que tomei seria ainda necessária. Talvez já seja possível ficar aí (Salvador) numa boa, sem diferença nenhuma. Com relação à literatura, acho que, se minha vida se alargou, o mesmo deve ter acontecido com meus escritos. E estando no Rio, mais perto da imprensa dita “nacional”, claro que tive mais visibilidade.

LT: Enxerga diferenças no lugar que mulher e homem ocupam dentro da literatura brasileira? A crítica especializada guarda algum tipo de preconceito, velado ou explícito?

SC: Não creio que, quando um resenhista escreve sobre um livro de autor que ele não conhece, faça alguma diferença se é homem ou mulher. Mas ainda vejo, sim, uma diferença na questão do reconhecimento, da validação final do trabalho. É mais fácil para um homem ser reconhecido do que para uma mulher. Você constata isso comparando, por exemplo, a diferença de número entre escritores dos dois sexos que ocupam cadeiras na Academia Brasileira de Letras. As mulheres entraram, mas são comparativamente poucas. Em eventos literários importantes, sempre são convidados muito mais autores homens. O número de escritores homens que aparecem na mídia é bem maior, embora muitas mulheres estejam escrevendo e publicando. E vai por aí. Poucas escritoras conseguem entrar no panteão dos Grandes, no Brasil. Ou em toda parte...

Kátia Borges: A Bahia aparece em seu romance “Atire em Sofia” como um lugar sombrio, uma Salvador sem nome, mas com as características da cidade. Por que essa espécie de sublimação?

SC: Embora eu guarde uma grande nostalgia de Salvador, a ponto de nunca ter me afastado inteiramente da cidade, foi aí que tive as experiências mais duras da minha vida. Fiz mais de vinte anos de análise para tentar descartar esses traumas e não sei se consegui inteiramente. A cidade que aparece no “Atire em Sofia” tem mais a ver com essas experiências pessoais profundas do que com qualquer cidade real, embora apresente características de Salvador. Talvez por isso eu não dê nome a esse lugar sombrio, cheio de aparições e assombrações e onde acontece um crime...

LT: Sua produção de livros de contos e romances é muito equilibrada. Tem alguma definição pessoal para o conto? O que busca hoje num romance, seja seu ou de outro escritor?

SC: No momento, estou sem nenhum projeto de escrever um romance. Há muito tempo escrevo apenas contos e não com a frequência que desejaria. Talvez porque, de dez anos para cá, tenha enfrentado novos problemas que interferiram com minha criação literária. Está difícil realizar projetos que exijam mais planejamento, mais horas de computador, como é o caso de um romance. Quanto à segunda parte da sua pergunta, não tenho uma “definição” para o conto. Poderia falar em tendências que tenho observado. Nos últimos anos, apareceram cada vez mais os contos curtos. E “contar uma história”, no sentido convencional, saiu de cena por completo, a não ser como um jogo. Vejo também, no conto hoje, uma descrença total no “realismo”, digamos assim. O autor fala diretamente com o leitor, os personagens tiram suas máscaras. Num romance de outro autor, não busco nada específico, a não ser, talvez, que ele alargue, de alguma forma, minha percepção da vida... Quanto aos meus romances, nunca tive expectativa prévia. Nasceram ao sabor do que ocupava minha cabeça.



Mayrant Gallo: Qual o seu livro que você mais aprecia? Qual o seu conto que você considera perfeito? E por quê?

SC: Escrever literatura sempre foi para mim uma atividade penosa, embora também “salvadora”. Escrevo por uma forte necessidade interior, mas não diria que “por prazer”. Não “lambo a cria”, como se diz. Assim, fica complicado dizer que livro meu mais aprecio. E não considero “perfeito” nenhum conto meu. Essa idéia de perfeição nem me passa pela cabeça. O que quero é botar para fora algo que está dentro de mim, pedindo para sair – e completar o processo, o que nem sempre acontece. Muita coisa fica pela metade, inacabada.

MG: Como monta seus personagens? De modelos da vida real ou de modelos imaginados?

SC: Minha literatura sempre esteve bem próxima da vida, nunca foi uma coisa “de gabinete”. Parto de uma experiência vivida, de um episódio de que participei, ou de uma pessoa de verdade que, de alguma maneira, me impressionou. Mas tudo é transformado e, no final, ficam apenas fiapos do que vi ou vivi. O problema é que as pessoas encontram esses indícios e acham que tive, integralmente, experiências que nunca aconteceram.

MG: Você escreveu “Rainhas do crime”, o que nos leva a crer que é uma leitora do gênero policial. Como explica o fato de que, no Brasil, o gênero policial que, pelo mundo, gerou grandes livros, como “O longo adeus”, ou “Santuário”, seja ainda considerado subliteratura?

SC: Não vejo pessoas considerando o policial subliteratura, pelo menos no meio em que transito. O que se pensa do policial é que se trata de um gênero específico. Quanto a mim, embora simpatize com o gênero, nunca fui, na verdade, grande leitora de policiais, salvo durante os três anos em que preparei uma pequena dissertação de mestrado que foi publicada com o título “Rainhas do crime”. O que me levou ao policial foi mais a questão da autoria feminina. Não havia escritoras policiais entre nós, quando escrevi a dissertação, salvo Maria Alice Barroso, autora de “Quem matou Pacífico?”, na verdade mais um romance regionalista. Nesse período, anos 80-90, começou a surgir, nos Estados Unidos, o chamado “romance policial feminista”, criado, entre outras autoras, por Sara Paretski, de quem traduzi três romances. Paretski põe em cena uma detetive mulher, Warshawski, bem diferente da Miss Marple da Agatha Christie. Warshawski traz a imagem da mulher sozinha na metrópole, da mulher que trabalha e se sustenta, uma figura que começava a se impor no Brasil. Isso me interessou e então propus, na Escola de Comunicação da UFRJ, fazer minha dissertação sobre autoria feminina no policial. Por outro lado, naqueles anos 90, havia um grande interesse pelo policial entre nós. O autor mais cultuado era Rubem Fonseca, que justamente aboliu a fronteira entre literatura “culta” e “de massa”, escrevendo romances “eruditos” com fortes elementos do policial. Depois da pesquisa para o “Rainhas do crime”, escrevi um romance que é quase um policial, “Os seios de Pandora”. Criei uma repórter que funciona como detetive, Dora Diamante. Em seguida, por uma série de fatores, eu me desinteressei do policial e hoje não leio quase nenhum. Mas respeito o gênero.

KB: O que acha de alguns críticos, que afirmam que o romance acabou?

SC: Confesso que não gosto muito de ler crítica literária. Sempre senti que aprendo muito mais lendo o que os outros escritores escrevem. Mas gosto de ler ensaios sobre arte contemporânea. E lembro que um estudioso de arte, Arthur Danto, já falou, há alguns anos, no fim da arte... Mas a arte continua a ser feita e os romances continuam a aparecer aos montões nas livrarias.

KB: Como é sua relação com a literatura feita hoje em Salvador? Sente-se em “obrigação” com a produção de sua terra, a exemplo de vários autores que se tornam espécie de embaixadores, ou esta é uma visão provinciana e que a incomoda?

SC: Não acho que é visão provinciana, mas não tenho poder para me tornar “embaixadora” de alguma coisa. O máximo que consigo, enfrentando muitas dificuldades, é tocar adiante minhas coisas. Sinto, no entanto, uma simpatia natural pela literatura feita na Bahia. Tenho sempre vontade de me tornar amiga dos escritores baianos. Afinal, continuo sendo uma escritora baiana.

KB: Você atua também como tradutora. Quais os maiores desafios que enfrentou?

SC: Sou tradutora profissional, traduzo porque preciso ganhar dinheiro. Então, vou cumprindo as tarefas que as editoras me passam, os desafios têm sempre de ser vencidos. Não posso pensar em traduzir nesses termos de “desafio”. Mas diria que não existe tradução fácil. Todas desafiam, têm problemas, exigem pesquisas, consultas a dicionários, à internet.

LT: O surgimento da net, em sua opinião, estimula a formação de novos leitores? A experiência como blogueira tem sido positiva? Contribui para a aproximação entre escritor e leitor?

SC: Sim, acho que a net estimula a formação de novos leitores e, mais ainda, o surgimento de novos escritores. Cada um pode ter seu blog e escrever – e muita gente está fazendo isso. Faço o Sidarta há quase dez anos, com interrupções, e gosto imensamente. Entro em contato com grande número de pessoas interessadas no que ponho em meu jornal eletrônico. E acredito que muita gente procurou meus livros depois de ler meu blog.

LT: A conquista de dois prêmios Jabuti ajudou a consolidar seu nome? Acha que sua obra obteve o reconhecimento que merecia?


SC: Ter ganho dois Jabutis com certeza me ajudou a me firmar como escritora, mas o grande público toma pouco conhecimento disso. Também ajudou, embora fosse pouco divulgado, ganhar o Prêmio Clarice Lispector de Conto da Biblioteca Nacional, com “Ovelha negra e amiga loura,” de 2006. Quanto a reconhecimento, pergunto: o que é isso? Se me responderem que ser reconhecido é ganhar bastante dinheiro, obter larga simpatia e muitas amizades, direi que não tenho o reconhecimento que desejava. Queria muito mais, não importa se mereço ou não...

LT: Existe algum segredo para manter vivo o interesse pela escrita, após tantos livros publicados?

SC: Literatura para mim é vida. Manter aceso o interesse pela escrita corresponde a manter aceso o interesse pela vida. E não acho que eu tenha tantos livros publicados, não. Poderia ter escrito muito mais e muito melhor, se tivesse conseguido mais tempo livre e mais apoio.


Esta entrevista foi postada originalmente na revista eletrônica Verbo 21, de Lima Trindade, e teve a participação de outros intelectuais baianos, como entrevistadores.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

TODA A VERDADE SOBRE A TIA DE LÚCIA



Vocês estão convidados para o lançamento do meu novo livro de contos, "Toda a verdade sobre a tia de Lúcia", que acabei de receber - e achei lindo...Estou aqui "lambendo a cria"...
"Toda a verdade" será lançado no dia 25 deste mês de outubro, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, a partir das 19 horas, num evento coletivo da 7 Letras em que também será lançado o número dois da revista Lado7 e alguns outros livros de autores da editora. Aí está o convite.



Está na orelha do livro:

"Embora guardem características que configuram o já conhecido e apreciado universo ficcional da autora, os contos deste livro trazem uma Sonia Coutinho diferente e renovada.
Uma das novidades é a constante presença, como personagens, de figuras das artes e da literatura, que exercem o seu fascínio. Em cena, Joseph Beuys, Van Gogh e Kasimir Maliévitch; ou Clarice Lispector e Vladimir Maiakóvski, entre outros.
Já a extensão dos contos ganha aqui flexibilidade. Há alguns longos mas, entre eles, surgem os que se estendem por apenas duas ou três linhas. Muito curtos, mas poderosos, com seu mistério inquietante.
É a nova microficção de Sonia Coutinho, às vezes escrita diretamente nas redes sociais da internet, e que ela publica pela primeira vez.
Experimental, mas de leitura fácil e atraente, “Toda a verdade sobre a tia de Lúcia” é um convite irresistível, para quem gosta de literatura. Vale a pena conferir."


Desculpem, gente... Fica pouco modesto eu colocar isso em meu blog... Mas, se não gostarmos de nós mesmos, quem vai gostar? Era o que dizia sempre meu analista... Então, vai a propaganda... O livro está legal mesmo, não posso mentir...

KARINA RABINOVITZ

COM KARINA, A POESIA
TOMA AS RUAS DE SALVADOR
Entrevista de Karina Rabinovitz a Sonia Coutinho

Karina

As intervenções urbanas da artista e poeta Karina Rabinovitz andam mexendo com a cabeça dos baianos ainda pouco familiarizados com os procedimentos da arte contemporânea. Karina é jovem, mas já são longos os caminhos que percorreu, nas trilhas que levam da arte à poesia, ou vice-versa.
Sua publicação mais recente de poesia impressa na folha é o “livro do quase invisível”, que saiu em 2010 na coleção Cartas Bahianas, da editora P55.
Ela já havia publicado, em 2005, outro volume de poemas, “de tardinha meio azul”, pela editora infinito publicações (selo criado pela própria autora).
Mas, além dos livros tradicionais de poesia, Karina vem fazendo intervenções poéticas, videopoemas, intervenções urbanas, tudo em parceria com a artista visual Silvana Rezende. Seu trabalho pode ser acompanhado através do blog que ela edita, o sussurros, (www.karinarabinovitz.blogspot.com)
No momento, Karina está finalizando o projeto “um livro de água”, composto de poemas e videoarte. Ela dá oficinas da palavra e de vídeo na Oi Kabum – Escola de Arte e Tecnologia. E já recebeu vários prêmios.

SONIA - Descreva sua trajetória como artista-poeta.
KARINA - Não sei se há um ponto de partida, não saberia dizer qual o começo. É uma trajetória de muitos flashes de perplexidade com a palavra e certamente de um amor que já estava, antes de eu saber com a consciência.
A partir da consciência e da organização, poderia datar o ano de 2004. Comecei a me reunir com mais 3 amigos (Marlon Marcos, Paula Janaína e Silvana Rezende) com a idéia de criar uma editora nossa independente, para produzir e lançar nossas idéias artesanalmente, a infinito publicações. Fizemos 3 encontros – os primeiros passos pro infinito... Daí minha parceria com Silvana Rezende, que é artista visual, se consolidou e nós seguimos trabalhando juntas para a criação do meu primeiro livro “de tardinha meio azul”, que são poemas meus com ilustrações de Silvana e foi lançado em 2005, em Salvador. Nós começamos a trabalhar também com videopoesia a partir de poemas do livro. E o livro nos levou a participar de eventos (OffFlip – Festa Literária Internacional de Paraty, Bienal do Livro da Bahia, Poesia na Boca da Noite), nos quais começamos a inserir videoinstalações e intervenções poéticas.
A partir deste nosso trabalho em parceria, passamos a criar e realizar juntas, ações de intervenção urbana. Desde 2005 até hoje são diversas ações diferenciadas para deslocar a poesia do seu espaço habitual e fazê-la transitar pela rua. Colagem de fragmentos de poemas nos muros da cidade; caixinha de acrílico com bilhetes poéticos em pontos de ônibus; confetes de poesia e parangolé-poesia no carnaval; poemas bordados em vestidos ou em compotas de doces, em exposições de artes visuais; babadinhos de poesia, nos murais de cartazes de universidades, restaurantes e espaços culturais; lambe-lambe poesia, uma videoinstalação para praças públicas; entre outros.
Em fevereiro de 2009 criei meu blog (www.karinarabinovitz.blogspot.com) que é um inventário de minha poesia: as ações, poemas e outras coisas mais como canções e vídeos a partir dos poemas. Uma janela sempre aberta. Em 2010 lancei meu 2º livro de poemas “livro do quase invisível”, pelo selo Cartas Bahianas, da Editora P55, a convite de Claudius Portugal, editor do selo. O livro foi lançado em Salvador, pela editora, e em São Paulo e Rio de Janeiro, de maneira independente. Também em 2010 recebei o Prêmio Roquette Pinto (patrocínio da Petrobrás e apoio do Ministério da Cultura, através da Lei de Incentivo à Cultura), para a realização do projeto "poesia eletrônica" (www.myspace.com/karinarabinovitz). Foram 72 programas de rádio-arte, nos quais trabalhei a poesia oralizada e sonorizada.


SONIA - Para chegar a esta fusão de gêneros, você partiu, digamos, de onde? Que artistas ou escritores a influenciaram?
KARINA - É que eu aprendi primeiro a ler poesia (antes mesmo de eu saber ler), nas coisas do mundo, nas coisas dos dias. Minha mãe me ensinou esta leitura. Ela me levava pra assistir o sol, ler os caminhos, contemplar belezas. Depois eu comecei a ver muita poesia na música, na dança, no cinema, no teatro. E fui passear por diversas linguagens artísticas, atuando e trabalhando.
A partir do momento que a palavra se tornou meu objeto predileto, o que me move é um desejo grande de ver e sentir a poesia no dia a dia, misturada com as coisas mais comuns da vida. Naturalmente trabalho com a idéia de escrever neste mundo contemporâneo, que quase “exige” mais agilidade na escrita e formatos diversos para se mostrar um poema. É este mundo contemporâneo que me estimula diariamente à fusão de gêneros na poesia.
Sobre as influências, a primeira delas é de meu irmão mais velho. Ele foi o primeiro poeta que conheci e foi vendo ele, que entendi que existia a possibilidade de ser artista, ser poeta.... Tenho muita influência dos poetas da música – Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Zé Miguel Wisnik. As letras das músicas foram os primeiros poemas que tive acesso. E depois vieram Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Mario Quintana, Guimarães Rosa, Manoel de Barros. Hoje em dia ando visitando Paulo Leminski, Angélica Freitas, Carlito Azevedo, Narlan Mattos, Ricardo Domeneck, Alice Ruiz, Kátia Borges.
Outra grande influência no meu processo de construção pessoal foi a de Rogério Duarte. Tive o prazer de ser sua aluna, no meu último semestre na Ufba (Faculdade de Comunicação) e só em ir para as aulas dele e o ouvir falar sobre arte, sem dúvida transformou coisas em mim, que não daria pra explicar aqui com palavras e espaço restrito.
Especialmente em relação à fusão, minhas referências são Augusto de Campos, Arnaldo Antunes, Waly Salomão. Queria fazer as loucuras que Waly fazia! Mas como não sou tão explosiva assim, tento levar esta vibração para minhas intervenções poéticas, que são quase o avesso das ações de Waly, porque elas são mínimas e sutis, mas há uma mesma célula lá dentro, de desejo de sonho e um não-conformismo...

SONIA - O que você está produzindo, no momento?
KARINA - Em 2010, ganhei o edital de Apoio à Criação Literária da Fundação Pedro Calmon/Secretaria de Cultura do Estado da Bahia e estou escrevendo “um livro de água”, em parceria com Silvana Rezende. Eu escrevo as palavras e ela escreve as imagens. É um livro que deverá ter uma versão impressa e outra digital. Ainda estamos na fase de criação (devemos entregá-lo em setembro/2011), mas pretendemos que ele seja muito vivo em seu formato. “um livro de água” vai falar de um universo específico: ilha. Trabalhar metáforas que envolvem uma ilha e as questões de solidão, alcance do outro. Não por acaso trabalhar com esta metáfora de ilha ao escrever nestes tempos atuais, que cultivam a solidão, mesmo dizendo que não...
Além deste livro novo, estou trabalhando numa nova série de intervenções poéticas: o “poesia atravessada” (poemas em faixa de pedestres) e o móbile_poemas de rua.


SONIA - Você dá dedicação exclusiva à sua arte, ou trabalha em alguma outra coisa?
KARINA - Infelizmente não ganho o suficiente com a poesia... Trabalho atualmente como arte-educadora na Oi Kabum – escola de Arte e Tecnologia, ministrando Oficina da Palavra e tratando de questões sociais na Oficina de Vídeo.

SONIA - Quais são os seus planos e/ou projetos, agora?
KARINA - Meu plano mais próximo é editar e publicar “um livro de água”, quando ele ficar pronto.
Na lista dos planos também está: distribuir CDs com o meu “poesia eletrônica” para alguns institutos de cegos do país. E continuar brincando com as palavras até o (sem) fim.

UM CONTO DE MIRIAM MAMBRINI

Miriam Mambrini

MENINO

O menino entra na sala descalço, vestido num pijama de malha desbotado. As luzes estão apagadas, mas, na luminosidade difusa que vem do corredor, consegue distinguir a mulher diante da janela, olhando para fora. A mãe. Sua mãe. Ela dá um longo suspiro e esfrega o nariz com o dorso da mão.
- Você tá chorando, mamãe?,
Ela se assusta ao ouvir a voz do filho. Sem se voltar, responde:
- Não. É o resfriado.
- Tá frio aqui – diz o menino, se aconchegando a ela, buscando o calor do seu corpo.
A mulher fecha a janela, mas continua olhando através da vidraça. Ao lado, na ponta dos pés, o filho olha também.
- Papai tá demorando, não é? – pergunta depois de algum tempo.
- Ta – diz ela num tom duro.
- Ele deve ter ido tomar um chope com os amigos. Às vezes ele vai, não é?
Ela olha o relógio, que antes já consultou dezenas de vezes, e percebe que os ponteiros estão prestes a se juntar.
- Meia-noite! Que é que você tá fazendo acordado a esta hora? Vai pra cama, menino!
- Estou com insônia.
Ela dá um risinho sem alegria.
- E você lá sabe o que é insônia?
- Sei. É ficar na cama sem dormir. Desde que você me mandou pra cama eu estou lá sem dormir.
- Então deita no sofá. Quando o sono vier, você vai pra cama.
- Você fica comigo?
Vão os dois para o sofá. A mãe põe no colo a cabeça do filho e brinca distraída com seu cabelo cacheado, até que a respiração tranqüila e regular a convence de que ele dormiu. Então, desliza o corpo com cuidado, levanta-se, coloca uma almofada sob a cabeça do menino e volta a olhar pela janela.
- Não tou dormindo – diz ele de repente, abrindo os olhos – Você conta uma história?
- Agora não.
- Conta!
- Não insiste, menino!
Ele ainda está encolhido no sofá, de olhos postos na mãe.
- Não fica preocupada, não aconteceu nada com o papai. Ele já chega.
Ela se irrita:
- E quem disse que eu estou preocupada? Se tiver acontecido alguma coisa, pior pra ele!
O menino se senta no sofá e balança as pernas, batendo-as de encontro ao estofado.
- Mamãe... você vai se separar do papai? – pergunta hesitante.
- De onde é que você tirou essa idéia, Lucas?
- Foi você que disse. Eu ouvi. Foi num outro dia que eu tive insônia. Quando o papai chegou, você disse pra ele que, se continuasse assim, o jeito era vocês se separarem.
A mãe se senta perto do menino e fala num tom tranquilizador:
- Aquilo não foi pra valer.
- Então quer dizer que vocês não vão se separar?
- Não.
- Se vocês se separassem, eu me matava – diz ele, dramático.
Ela abraça o filho e o aperta com força contra o peito.
- Nunca mais diga uma bobagem dessas. Onde já se viu?
Tem vontade de acender a luz para dissipar todas as trevas, mas desiste, pensando que a luz acesa vai despertar o filho de todo.
– Vocês não vão se separar, não é? – insiste ele.
– Não. Mas se um dia por acaso nós nos separarmos, nada vai mudar pra você. Você vai continuar indo ao colégio, à praia, à pracinha ...
O filho a interrompe:
- Quem vai me levar na praia, você ou papai?
- Quem é que você prefere?
- Prefiro o papai. Você tá sempre com medo. Não deixa eu entrar na água direito.
Faz uma pausa e olha interrogativamente para a mãe
– Eu vou continuar morando com você aqui em casa?
- Claro.
- E o papai, aonde é que ele vai morar?
- Ô Lucas, acaba com essa história. Eu não vou me separar do seu pai.
- Você jura?
- Jurar, eu não posso porque não depende só de mim.
- Ah, você não jurou, quer dizer que vocês podem se separar.
Por entre as sombras da sala, a mãe entrevê o rosto concentrado do menino. Aos pouco, ele se descontrai.
– Se vocês se separarem, vou fazer feito a Fernanda, que mora com a mãe e sai com o pai no sábado. Ela disse que é maneiro, o pai leva ela onde ela quer, até no parque de diversões. Ela já foi na montanha-russa.
- Tá vendo? Não é tão ruim assim.
- A Fernanda agora tá chateada porque a mãe vai casar de novo e ela vai ter que morar com o namorado da mãe. Olha, vou te avisando – continua, mudando de tom – se você arrumar um namorado, eu não vou mais querer morar com você. Vou pra casa da minha avó!
- Assim já é demais! Até namorado você resolveu me arranjar!
– Você promete que não arranja namorado?
– Prometo. Agora vai pra cama.
- Deixa eu ficar só um pouquinho mais? Deixa?
- Tá bem. Só mais um pouquinho.
Ele estende os braços, se pendura no pescoço da mãe e dá um beijo molhado no seu rosto.
- Não fica triste, mamãe. Daqui a pouco o papai vai chegar.
Deita-se no sofá, e põe a cabeça no colo da mãe. Os olhos começam a se fechar, mas lembra-se de alguma coisa e os abre de novo.
- Sabe uma coisa engraçada? Outro dia perguntei ao papai se ele ia se separar de você.
A mãe se espanta:
- Perguntou pra ele também?
- É. E ele respondeu parecido com você. Disse que não gostaria que isso acontecesse, mas não dependia só dele – Faz uma pausa, as pálpebras descendo pesadas de sono – Isso é bom, não é?
Já está dormindo quando a mãe responde que é muito bom.

Formada em Letras pela PUC do Rio, Miriam Mambrini é autora de O baile das feias (contos, Obra Aberta, 1994), Grandes peixes vorazes (contos, 7Letras, 1997), A outra metade (romance, 7letras, 2000), As pedras não morrem (novela, Bom Texto, 2004), O crime mais cruel (romance, Bom Texto, 2006), Maria Quitéria 32 (crônicas, Bom Texto, 2008), Vícios Ocultos (contos, Bom Texto, 2009, em livro e audiolivro). Participou de várias antologias de contos e ganhou, entre outros prêmios, o Stanislaw Ponte Preta (1991). Participa do grupo de criação literária Estilingues.

JANAÍNA AMADO E JACINTA PASSOS

JACINTA PASSOS, UMA NOVANTIGA POETA

JANAÍNA AMADO


Janaína Amado tem transitado entre a história e a literatura, com publicações nas duas áreas. Aposentou-se como professora titular do Departamento de História da Universidade de Brasília (UnB). É autora ou co-autora de 20 livros na área de história, alguns destinados a escolas, outros ao público adulto. Publicou também livros de ficção, como o romance Dandara (São Paulo, Maltese, 1995) e três volumes infanto-juvenis. Organizou Jacinta Passos, Coração militante (Salvador, EDUFBA/Corrupio, 2010) contendo a obra e a biografia da poeta e jornalista baiana Jacinta Passos, sua mãe. Seu pai é o escritor e tradutor James Amado, irmão de Jorge Amado. Eis o depoimento de Janaína sobre Jacinta:

"Ela vivenciou a Bahia do início do século XX, imersa na experiência longa e recente da escravidão: senhores e senhoras, os brancos baianos, alicerçados em terras, religião, racismo e alianças políticas, mandavam, enquanto o povo humilde, analfabeto, negro ou mulato obedecia sem remuneração, ao som de suas danças afro-brasileiras e suas revoltas.

Ela vivenciou a Salvador dos anos 1930 e início dos 40, quando a pequena e provinciana cidade da Bahia despertava para os debates literários que rompiam com a tradição parnasiana, para o movimento das esquerdas e das agitações estudantis, as passeatas exigindo nas ruas o fim da Segunda Guerra e das ditaduras, na Europa e no Brasil.

Ela vivenciou a pequena porém agitada São Paulo de meados dos anos 40, quando os intelectuais se uniram para fundar a Associação Brasileira de Escritores e contribuíram para a restauração da democracia no país, quando o Partido Comunista do Brasil foi pela primeira vez legalizado, elegendo Luiz Carlos Prestes e outros para comporem a Assembléia Nacional Constituinte, na democracia.
Ela vivenciou a fervilhante capital da República do inicio dos anos 50, o Rio de Janeiro onde tudo acontecia, da vida noturna trepidante ao vigor dos debates intelectuais e das decisões políticas fundamentais, o centro da vida do país.

Ela vivenciou paixões intensas, por homens que a amaram e alguns a abandonaram. Vivenciou a maternidade, gerando uma filha da qual foi afastada. Vivenciou durante três décadas a experiência ilegal, clandestina e estigmatizadora de militante do Partido Comunista, tendo sido presa. E, a partir de 1951, vivenciou a violência extrema dos diversos internamentos em sanatórios, tratada a eletrochoques, injeções de insulina e isolamento severo, vindo a morrer quando internada.

Todas essas vivências, ela expressou no jornalismo — foi uma das mais ativas jornalistas da Bahia na década de 1940 — e, sobretudo, na poesia. Rabiscando poemas desde muito jovem, publicou em vida quatro livros de poesia elogiados pelos maiores críticos e intelectuais da época (Aníbal Machado, Gabriela Mistral, Oswald de Andrade, José Paulo Paes, José Mindlin, Antonio Cândido...), e escreveu literatura, em poesia e prosa, durante toda a vida, inclusive quando interna, até a véspera de sua morte.

Estamos falando de Jacinta Passos (1914-1973), poeta, escritora, intelectual e jornalista nascida de família rural abastada em Cruz das Almas, Recôncavo da Bahia, católica fervorosa que se transformou em comunista ardorosa, mulher de hábitos livres num Brasil machista, casada em 1944 com o jornalista e escritor James Amado (irmão de Jorge Amado) e, a partir de 1951, diagnosticada como esquizofrênica paranóide, separada e sozinha, vindo a falecer como louca em um sanatório de Aracaju.

As trajetórias literária e humana de Jacinta Passos ficaram esquecidas nas décadas seguintes à sua morte, pois as pequenas tiragens de seus livros estavam esgotadas, pouco se sabendo sobre sua existência atribulada. Recentemente, a poeta voltou a ser alvo de interesse, com a publicação de uma primeira biografia (Dalila Machado, A história esquecida de Jacinta Passos. Salvador, 2000), de um livro de ensaios (Gilfrancisco, Jacinta Passos: a Busca da Poesia. Aracaju, 2007), de uma monografia de Especialização (Danielle Fuad, Passagem de Jacinta Passos pelo Jornal “O Imparcial” (1943). Salvador, 2008), e de Jacinta Passos, coração militante (Salvador, Edufba/Corrupio, 2010), volume organizado por sua filha Janaína Amado, que reúne toda a poesia e a prosa, inclusive a inédita, de Jacinta, uma nova biografia, sua fortuna crítica, diversas fotografias — que revelam uma belíssima mulher — , além de ensaios de escritores e críticos produzidos especialmente para a edição. Foi criado ainda o site http://jacintapassos.com.br.

Jacinta Passos com Janaína em criança


A poesia de Jacinta Passos, que apenas começa a ser desvendada, é lírica e política, as duas vertentes muitas vezes se mesclando. Seu primeiro livro, Momentos de poesia, de 1942, revela a profunda experiência mística da autora: Senhor,/eu quis fazer de minha vida/meu mais belo poema em teu louvor. Ou:Ouço vozes estranhas/[...]São vozes de sofrimento, de amarguras,/vozes de todas as criaturas/que falam por minha voz./Todas as criaturas que sofreram/ esta ânsia indefinida/ – angústia milenária como a vida –/ de querer atingir o inatingível (O Mar).

A experiência avassaladora do amor está presente desde o primeiro livro: Existimos fundidos num ser único/ que ignora a sucessão no tempo, [...] como um astro sem memória perdido no espaço sem princípio e sem fim (O Momento eterno). Nos segundo e terceiro livros, Canção da partida, de 1945, e Poemas políticos, de 1951, o amor desabrocha em erotismo: Agora teu corpo é fruto./Peixe e pássaro, cabelos de fogo e cobre./ Madeira e água deslizante, fuga/ ai rija/ cintura de potro bravo (Canção do amor livre).

Dois outros temas são caros à poesia de Jacinta Passos: a política e a situação da mulher, o segundo contido no primeiro. Seu último livro, A Coluna, de 1958, é um longo poema épico sobre a Coluna Prestes. Mas raramente Jacinta foi panfletária. Seus versos transformaram política em boa poesia, como em “1935”, sobre a fracassada revolta comunista deste ano, que assim começa: Tenso como rede de nervos/pressentindo ah! Novembro/ de esperança e precipício./Fruto peco. É sobretudo a mulher pobre, duplamente oprimida, a protagonista de vários versos de Jacinta: Nós somos gente marcada/– ferro em brasa em boi zebu –/ninguém precisa dizer:/ Bernadete, quem és tu? (Canção da partida). E: [...] Mulher virgem, condição/para homem dar – nobre gesto –/ resto duma divisão/ se a divisão deixou resto./[...] A flor caída no rio/que a leva para onde quer,/sabia disso e caiu,/seu destino é ser mulher (Canção simples).

Mas talvez seja a evocação da infância “o princípio organizador da obra de Jacinta Passos”, como concluiu o poeta Fernando Paixão. Em seus poemas líricos que evocam a cultura popular de sua Cruz das Almas natal, Jacinta “se apropriou do espírito narrativo do povo e o devolveu crescido e com roupagem nova”, explicou o escritor e crítico Ildásio Tavares. E Jacinta sai cantando: Boi da cara preta não não meu boizinho,/ não pegue neném, não, ele é meu filhinho (Cantiga de ninar). Ou: Camilo, você é pobre/e nunca foi senador,/mas por que é igualzinho/ao retrato de vovô? Ou ainda: Tanta laranja madura/ai tanta!/que aroma vem do quintal./A maré já deu passagem/cresce meu canavial/minha vara de condão/cavaleiro, teu punhal./ Jasmim da noite floriu./ Jasmim./Acabou-se o bem e o mal./Já tirei os meus sapatos,/Vesti meu manto real (Chamado de amor). "

UM CONTO DE KATIA GERLACH


PELETERIA

Darlene desenterra o dia das ruas e as mãos dos bolsos que é para acudir os cabelos. A cabeleira crespa alisada para trás; os fios brilhosos, afixou-os com dedadas de gel e, entrementes, tombam sobre o semblante; o arco não é auréola, Santa Darlene-creio-em-deus-pai. Passos ligeiros e baforadas curtas, os de trás respiram o ar convulsivo da Darlene e basta cravar o olhar nela para recuarem. Há pouco saíra da tourada. Tequila on the rocks: noite toda, a unha postiça do indicador girando o gelo na circunferência do copo servido pelo bartender com quem dividia as comissões. Ah, Darlene, em cujos cartões postais para a família, você conta ser dançarina de sapateado na Broadway, se a fosforescência do mundo acabar, onde você vai estar? As amigas não lhe vão servir para nada, a Edileuza, a Creuza, a Marlene e todas as outras, astoria queens, simulam lealdade, enquanto se arrepiam de invídia verdejante, colocam no palco a tragédia grega de Gotham.

A voz entubada da Edileuza passa despercebida pelos espectadores ébrios e ela prolonga os intervalos para esconder a tosse de cachorro, à medida que pede mais cigarros à Darlene porque cantar paga menos do que dançar, as gorjetas variam e a Edileuza não enxerga justiça nisso, afinal a Darlene não vai além de um strip parcial por ser católica praticante. A Creuza e a Marlene acompanham no coro de fundo e depois da apresentação, o quarteto se arma em muralha caso algum valentão resolva tostar guimbas nas pernas grossas de uma delas, sentadas a mesa. Desequilibram-se nas cadeiras quebradiças do barril noturno s.a., o rapaz do bar teima em piscar maliciosamente para aquelas damas alçadas pelos anos, via-se logo a malaise do Francisco, bezerro carente de mãe, uma delas bem que serviria para acolhê-lo nos seios enganosamente maternais.

Darlene abotoa e desabotoa a camisa de tachinhas prateadas ao seguir pela calçada que se manifesta. O estômago mareado, ondas ondulantes duvidosas, o barco em jornada sem bússola, o que a roupa justa não contém é a carne morena que esbanja e de que Waldecy gostava até o domingo quando vomitou palavrão e deu um casaco de chinchilas para a Edileuza. Puro despeito de um homem de mãos tenras, dedos de veludo, uns mimos e umas manias que a Darlene aguentara por causa da linhagem dele. Raro um daqueles dando sopa nas margens cinzentas do East River, cordão de ouro com crucifixo, família de nível, educado em escola particular, cheiroso de perfume francês, superando as ilusões de asfalto da Darlene. No fundinho da anima, a Darlene desconfiava que o Waldecy a visse como criada de cama e mesa, sem que esta ciência inibisse o esforço dela para agradá-lo. Trocava roupas de cama e toalhas de banho dia sim, dia não, passava lençóis a ferro, cuidava das roupas íntimas do Waldecy para que não encardissem, quarar inviável no porão sem área de serviço, mas ela aprendera a moderar na amônia para obter a alvura ideal e não rasgar o tecido. A mãe a educara para evitar o encardimento das roupas do marido. O Waldecy não era marido, todavia, entretanto, não obstante, ainda assim.

Sob os vinhedos enrijecidos pela poluição, as crianças do barrio atiravam jatos de água em todas as direções, contentavam-se com os arco-íris empalidecidos, o céu prometia manter-se azul até nove da noite, um ar úmido embolorava o peito. Darlene volta sempre do trabalho. Sim, está sempre voltando do trabalho e esconde o ódio fervente do tapa levado pelo Waldecy no fim de semana, homem que dava tapa na bunda como na cara, humilhando-a sem reconhecimento. Ela garantia que ele agora brincava com o pequeno anel de ouro, o brasão da família e alisava os dentes da boca pequena com a língua da maneira que gesticulava ao assisti-la azeitar a salada e o frango grelhado. Creuza, Edileuza e Marlene não se cansavam de bajular o Waldecy pela educação de cavalheiro, o humor, o jeito sóbrio, tão distinto dos frequentadores do barril. Quem naquelas bandas se dava ao trabalho de abrir a porta do carro para uma mulher? Ou se levantava para ajudar uma dama a sentar-se? A Darlene enxergava os olhos relampejantes das amigas quando o Waldecy comprava uma rosa do camelô florista, torcia o caule espinhoso e encaixava-a na orelha pingada da Darlene, mulher de rosto bonito malgrado a pelugem. Ela não contava a ninguém sobre a intimidade com o sujeito, fazia segredo das inúmeras vezes em que o Waldecy transformara o carro em jaula no estacionamento do supermercado, abandonando-a ao léu com uma fresta minúscula da janela aberta para não asfixiar antes de despelar.

Desde que amigara o Waldecy, Darlene fecha as pálpebras roxas, quase negras, e não dorme. As chinchilas, pequenas almas balbuciantes viajadoras de uma ponta da américa a outra eram alminhas maléficas que mordiam-na corpo inteiro, para acordá-la aos berros e de cara com a porta de vidro fumê do minibar onde o Waldecy guardava o Tesouro. As peles penduradas, as fisionomias do último sofrimento recheando as feições debilitadas: Darlene enfastiava-se do abatedouro. Waldecy chutava-a de súbito nas pernas para que o deixasse dormir. Ela transpirava, indecisa quanto à necessidade do edredom, seguia à cozinha para um copo d’água, o líquido engolido aos goles qual o convívio com o Waldecy, quem, divorciado três vezes, dissera-lhe num daqueles momentos de tapa na cara que se ele encontrasse uma mulher que facilitasse a regularização dos papéis, encheria as malas e a Darlene que olvidasse o Waldecy. Podiam esbarrar na rua que ele não a reconheceria, de propósito, língua no canto do céu bucal e uma risada irônica nascendo de dentes tão miúdos quanto os dos animaizinhos, retratos de natureza morta por detrás da opacidade insuficiente do minibar.

A mãe do Waldecy, a quem Darlene se apresentara por via telefônica, criava as chinchilas, investia na ração enviada e se responsabilizava pelo despacho climatizado das criaturas. A temperatura da quitinete no porão da casa de tijolos descascados e escadas rangentes deveria ser mantida no nível do ambiente natural das chinchilas, de modo que Darlene e Waldecy não dispensavam os agasalhos entre as paredes de gesso branco que o proprietário, o seu Giuseppe, embriagado de grappa no café da manhã e aliciador de garotinhas no barril, se negava a forrar de papel e exigia que a Darlene preparasse cafezinho para ele cada vez que cobrava o aluguel às vésperas do dia do vencimento.

Manhã noturna, as luminárias acesas no porão, Darlene amarra o cinto do roupão de pelúcia, caminha para a cozinha sem não antes enxergar os bibelôs umidecidos, as pessoas e as coisas quase levam susto ao acordar menos o Waldecy dormindo que nem água de poço. Waldecy vislumbrava nos restos precários dos animais a sua fortuna, os sonhos, as nuvens azulinhas. Quer preparar um catálogo fotográfico, convida Darlene e as amigas para o ensaio na Times Square mas, à Edileuza, ele pede que vista um vestido longo, negro para a foto de luxo. Recomenda à Darlene e as outras uma boa maquiagem e jeans, e, Darlene, querida, faça-me o obséquio de um batom discreto e não aquele rosa fúcsia borrado que você tem mania de usar no trabalho, o meu catálogo é direcionado para gente fina, Alexander McQueen coisa e tal. A idéia é aterrissar na Times Square antes que o dia tome forma, evitar o tumulto dos pedestres, pegar os primeiros raios de sol alaranjado que o canal do tempo previu. O Waldecy de fronte ao espelho dá tapinhas na cara com a loção pós-barba old spice, passa o pente no cabelo ralo, não costuma banhar-se na manhã, exala uma mistura de talco e colônia, a pia salpicada de fios atômicos, pasta de dente destampada, toalha largada, Waldecy não perde o hábito como deixa perder os fios de cabelo no chão do lavatório.

Quem diria, ela, Darlene, fotografada no triângulo da Times Square. O Waldecy insistia para que ela parecesse menos rabugenta, ô Darlene, olha para as tuas amigas, sorridentes, abre a boca num sorriso, vai? O Waldecy não dava sossego embora eles levassem a vida fifty-fifty, aluguel, comida, roupas, passeios, tudo dividido pela metade, ela ralava no barril e ainda complementava o dinheiro com serviços de limpeza apesar de odiar faxinar. Isto sem contar a sina do Pedro Augusto, o filho dela internado no hospital da capital, ninguém descobria a doença do menino, a família não cessava de lhe telefonar, Darlene, o menino não cresce, o menino não engorda, o menino não come, aliás, parece sim que está sendo comido por dentro e, ela, o que sabia do Pedro Augusto? Gestara a criança por nove meses, parto normal, bebê normal, amamentado por um ano e daí? Daí que ela precisava ganhar dólar, já completava oito anos, o Pedro Augusto nas fotos, nas telas de computador, as mãozinhas encostadas no vidro para tocá-la, ele a chamava de mãe e senhora, com respeito, aprendera a pedir roupas e tênis, o Pedro Augusto, o menino melhor vestido na cidade pobre à beira do rio das cinzas podre e barrento como na maioria das cidades brasileiras que não se fotografam. O Pedro Augusto tem que estar bem e na próxima semana preciso pinçar as sombrancelhas que entortam a minha testa.

O domingo correu, sessão de fotos, café da manhã no pão nosso, o copo de café com leite cheio de aleluias, a missa das onze, estavam de folga e à toa. Vieram todos para a casa, o Waldecy liderando, prometeu preparar um risoto de carne seca e abóbora que sabia cozinhar melhor do que ninguém, nunca ia para o fogão, porém, quando resolvia vestir o avental era para arrasar com um prato elegante, nada de arroz e feijão, bife, galinha assada. A comida vinha de um jeito na travessa que a Darlene deslembrava os modos de segurar garfo e faca. Acabou que substituiu a carne seca por camarão porque você Darlene não tirou o sal da carne seca, portanto estragando parte dos planos para um almoço magnífico. As meninas o admiravam, Darlene este Waldecy é o teu bilhete lotérico, aposta cheia. Às tantas, o Waldecy zonzo de vinho abre a geladeira das chinchilas, tira um casaco e presenteia a Edileuza. Toma, Edileuza, é teu, em agradecimento pelas fotos de hoje. Nem a Darlene tem casaco de chinchila, ele ousa dizer, olhando-a de esguelha. A Edileuza estala os lábios, muito no cinismo de quem canta para arrancar gorjetas dos homens. Ela acaricia a pele com as mãos, veste o casaco fora de estação, você tem certeza, Waldecy?

Amanhece, amanhece, não pára de amanhecer nesta cidade que aperta as noites como os sapatos espremem os pés e a Darlene desce a avenida estreita da broadway no queens, os dias de inverno se aproximam, a vida fifty-fifty com o Waldecy continua a mesma bosta, o Pedro Augusto não cura, pede a ela que volte e ela não quer ver o menino que nunca viu, não quer largar o marido que não tem, não quer partir de onde não pertence, Tequila on the rocks, a unha comprida do indicador faz o gelo contornar a circunferência do copo, tomava bebida de homem, one shot, many shots, tiro certeiro, vários tiros. Noutro domingo, estivera no confessionário, tocou na perna do padre com o dedo lambuzado de Tequila e podia jurar que girara a circunferência do mundo a seu favor.

Kátia Bandeira de Mello-Gerlach, natural do Rio de Janeiro, é escritora radicada em Nova York e colaboradora do jornal literário português www.pnetliteratura.pt. Seu primeiro livro de contos "Forrageiras de Jade" foi lançado pelo Projeto Dulcinéia Catadora em 2009.


Foto de Ricardo Esteves


"Ricardo Esteves est séduit par les détails, les entrelignes parlent en secret puisque c’est dans l’expiration que chacun s’expose… beaucoup plus que ce qui reste gravé dans la rétine, il reste ce qui chante dans l’âme. Dans la fraction de sa vision, il montre l’envers de l’univers si familier à tout être humain avec la délicatesse culturelle de chacun.Ricardo Esteves nasceu no Rio de janeiro e atualmente mora na França onde trabalha como fotografo de publicidade e de arte."

MÁRCIA CAVENDISH WANDERLEY

AS TERRAS PROIBIDAS DE LUIZA LOBO


Um “Casa grande & senzala” do Vale do Paraíba do Sul, é o que se pode dizer deste romance portentoso de Luiza Lobo, escrito em tom rememorativo, às vezes proustiano, de quem se lembra de um passado não vivido nem testemunhado, mas a respeito do qual reuniu documentação confiável e verídica, tornando-se histórica e antropologicamente sustentável. O que não seria novidade, dada a quantidade de cientistas políticos e sociais, antropólogos, historiadores, juristas etc a utilizarem, no passado e no presente, a literatura como fonte secundária para suas investigações.

Este romance é bastante confiável inclusive porque sua autora (a qual apresentei com honras no meu livro Mulheres: prosa de ficção no Brasil 1964/2010, recentemente lançado) é um dos últimos ramos da família Teixeira Leite e assim teve acesso a todas as informações que constituem a argamassa da narrativa, utilizando fontes primárias, em conversas com os e mais antigos parentes e aderentes remanescentes da sua e de outras famílias que viveram a saga das fazendas do café do vale do Paraíba do Sul, na então província e depois Estado do Rio de Janeiro. Isso para não falar de documentos secretos por tantos anos guardados em baús e ainda em poder da família, que a autora pôde manusear.


Um resgate que acompanha quase três séculos de história de família e da história do ouro negro, que deslocou o eixo da economia brasileira, inicialmente centrado no núcleo canavieiro do Nordeste, depois na região central das Minas de ouro e pedras preciosas e finalmente no Sudeste e Sul cafeeiros, completando o período agroexportador da economia brasileira. Mas enquanto durou este último ciclo no Sudeste, o do café, a produção e comercialização foram tão bem sucedidas que os barões agrários, responsáveis por esta produção, ficaram suficientemente ricos para alimentar os luxos e o fausto do Imperador e sua corte, e a própria cidade do Rio de Janeiro foi transformada e tornou-se mais bela e fascinante com o capital gerado no Vale do Paraíba do Sul. Foi por isto mesmo que tantos proprietários rurais se tornaram barões, pois os títulos eram doados pela monarquia à guisa de recompensas.


No final desse processo a monarquia, já bastante abalada pelos protestos contra a pútrida escravidão e pelos ecos dos gritos republicanos, irá ruir diante dos questionamentos e ditames da República, definitivamente instalada a partir de 1889. Tudo isso está contado em forma romanesca por Luiza, que desloca também o foco narrativo do protagonista básico da história, a elite cafeeira rural, para a voz dos escravos e negros, representados principalmente por Manuel Congo – uma verdadeira força moral que determinará o destino de sua família pelo vaticínio mortal proferido na hora de seu enforcamento em praça pública, em Vassouras.


Esse sortilégio teria determinado a decadência e as agruras sofridas não só por uma, mas por todas as famílias daquela região. É uma estória triste e longa de decadência e mortes que nos convence como verdadeira, porque a prosa de ficção é eficiente neste papel de “suspension of disbelief”, embora saibamos que não foi diferente o destino das famílias da elite canavieira dos engenhos, quando as empresas usineiras tomaram conta da produção do açúcar e multiplicaram essa produção muitas vezes.


José Lins do Rêgo é um dos escritores que desenha esse quadro com sensibilidade e graça em Menino de engenho, Usina e outros livros que contam a estória daquelas famílias. No Sudeste, a abolição da escravatura e a imigração promovida desde o Império com vistas a uma industrialização que somente floresceria na República, serão a sentença de morte da economia cafeeira. Aqueles escravos, tanto no Nordeste quanto no Sudeste, tiveram muitas vezes tratamento desumano – e Luiza relata os casos das atrocidades e barbaridades que alguns proprietários de fazendas, como os Wernecks, por exemplo, faziam com seus escravos, que às vezes eram até enforcados, como no caso de Manuel Congo.


Entretanto, a partir de uma certa data, na região Sudeste, esse comportamento bárbaro tornou-se mais suave e os escravos passaram a auferir mais direitos e benesses de seus proprietários. É àqueles homens e mulheres, os 147 escravos da fazenda Cachoeira Grande, pertencente ao barão de Vassouras, seu ancestral Francisco Jose Teixeira Leite, que Luiza dedica seu livro, corroborando a intenção acima mencionada de realizar o descentramento das vozes dos poderosos para abrir espaço a outras, sempre subjugadas e inaudíveis.


O mesmo acontece em relação às mulheres. Conquanto Luiza advirta no inicio do terceiro capítulo da primeira parte: “Das mulheres não falo porque não são importantes”, é delas que mais falará, e não apenas através das chamadas “baronesas loucas”, e nem tão loucas, mas enlouquecidas pelo patriarcalismo castrador, mas também através da voz de uma personagem como Elisa, aparição fulgurante e iluminada como um relâmpago rápido em noite escura, em toda sua leveza, inteligência, paixão e revolta femininas vivas contra o status quo de mulheres emudecidas e apagadas que fizeram o cenário das fazendas do Vale do Paraíba e das casas grandes – ali, onde “nenhuma delas foi feliz”.


Dessas e de outras vozes submersas e emudecidas no decorrer da história fala a autora, que não deixou de lado as peripécias da Maçonaria em suas lutas pela libertação dos escravos e pela República; das idas e vindas de sua própria família em direção à ruína inapelável, que, como as outras, tão aprisionadas estavam em suas próprias redes por sistemas de parentesco que garantiam a limpeza da raça branca que pouco lhes sobrou em termos materiais. Contudo, restou o que ficou do talento manifestado em alguns membros daquelas antigas gerações.


Eliza é um destes membros que, conquanto tenha vivido um curto espaço de tempo no mundo, manifestou possuir a inteligência, a vivacidade e outras qualidades intelectuais e sensíveis que surpreendemos agora neste excelente romance com fôlego para contar a história que envolveu a saga dos Teixeira Leite e outras famílias. Eles fizeram, apesar da nódoa escravista, a grandeza e o brilho da Monarquia e de uma época de ouro da província e hoje Estado do Rio de Janeiro. Parabéns Luiza.


Márcia Wanderley


Marcia Cavendish Wanderley é pernambucana, professora de sociologia da literatura da UFF, e autora dos livros A voz embargada (São Paulo, Edusp, 1996), Do jeito delas: vozes femininas da língua inglesa (Rio de Janeiro, 7Letras / Faperj, 2008) e Mulheres: prosa de ficção no Brasil no Brasil – 1964/2010 (Rio de Janeiro, Ibis libris / Faperj, 2011). Publicou um livro de poemas: O terceiro jardim (Rio de Janeiro, Editora da Palavra, 2006).

sexta-feira, 20 de maio de 2011

A FESTA DO LADO 7

Entrevista de Jorge Viveiros de Castro a Sonia Coutinho

A editora 7 Letras, casa de pequeno porte que ganhou nome entre as melhores do país, prepara grandes transformações em sua atuação, a fim de acompanhar as mudanças no mercado livreiro. Afinal, estamos diante da chegada forte da tecnologia digital na área do livro, prometendo trazer maciçamente um dispositivo eletrônico como veículo alternativo para a leitura. Marcando a virada, no próximo dia 31 haverá o lançamento de uma nova revista, a Lado7, com duplo formato impresso e digital, na Livraria Travessa do Shopping Leblon. Jorge Viveiros de Castro, o editor – meu editor - começou a editar livros quase menino.

SC - Jorge, você já está com a editora 7 Letras há bastante tempo, não? Há quanto tempo, mesmo? Que idade tinha, quando se tornou editor?
JVC - Comecei a trabalhar como livreiro em 1988, aos 21 anos. Fundei a Editora Diadorim em 1993, e logo em 1994 passei para a 7Letras – portanto posso dizer que sou editor desde os 26 anos, e hoje a editora está quase chegando à maioridade, com 17 anos de estrada.
SC - Fale um pouco desse percurso, lembre alguns episódios que marcaram você.
JVC - Posso dividir a trajetória da 7Letras em 3 fases. No início a editora funcionava dentro de uma pequena livraria, e comecei a trabalhar com livros em pequena tiragem, especialmente de poesia, que lançávamos na própria livraria. Nessa época fazia tudo praticamente sozinho, com a ajuda de uma estagiária.
Alguns anos depois a editora se separou da livraria e passou a publicar um número maior de títulos acadêmicos, principalmente na área das ciências sociais. Desde então o catálogo da editora foi crescendo em número de títulos e em variedade de gêneros, também com muitas coedições. Durante essa etapa a editora se profissionalizou como empresa, e passei a atuar mais no setor administrativo – ainda que sem perder o foco na questão editorial, bem como tentando não deixar de lado a paixão pela leitura.
A terceira fase teve início quando nos mudamos para a sede atual, em Botafogo, e montamos um estúdio de gravação para ampliar as experiências de criação editorial já tendo em vista a chegada das novas ferramentas e dispositivos de leitura em formato digital, que permitirão o trabalho com áudio e vídeo como complemento da leitura. De certa forma, esta fase marca também uma volta às origens, pois estamos novamente trabalhando com poesia em pequenas tiragens, agora agregando aos livros gravações em áudio dos poetas para veiculação online em formato digital.
Posso lembrar de vários episódios marcantes, como o dia em que o depósito da editora (que ficava no subsolo da livraria) inundou numa daquelas enchentes de verão e tivemos que fazer uma verdadeira “operação de guerra” para salvar os livros – contando inclusive com a inestimável ajuda do poeta Carlito Azevedo, editor da revista Inimigo Rumor e um dos principais autores do catálogo da 7Letras até hoje.

SC - A 7 Letras lançou vários dos melhores autores da nova geração brasileira. Como você se sente, com relação a isso?
JVC - Tenho orgulho da trajetória da 7Letras, e de ver reconhecido o trabalho de muitos autores em quem apostamos desde o primeiro instante, ainda quando eram inéditos.

SC - Tem alguma coisa a dizer sobre a literatura no Brasil, agora? Acha que está saudável, ou é doente terminal, como dizem alguns?
JVC - Acho que está muito saudável. Há muitos jovens escrevendo, muito mais do que na minha geração; o acesso à informação e até mesmo à leitura vem sendo ampliado com as novas tecnologias desde o surgimento do computador e da internet, e vejo com bons olhos o surgimento de escritores jovens – tanto poetas quanto contistas e romancistas – que falam (e escrevem, ou traduzem) a língua de seu tempo, com talento e criatividade. O mais difícil é a boa literatura chegar a um número expressivo de leitores, em meio a um mar de obras estrangeiras e dos gêneros de consumo rápido tipo autoajuda e similares. Mas ela existe, como sempre, e também está sendo produzida justo agora por uma nova geração que praticamente já nasceu na era da informática. Sem falar nos autores já estabelecidos e ainda atuantes. SC - Que tal essa atividade de editor? É exaustiva? É gratificante? Qual é o saldo de tudo isso, neste momento?
JVC - Ufa, confesso que tenho de parar pra pensar. É exautiva sim. É gratificante também. De certa forma parece que não saí do lugar: estou com uns três arquivos abertos aqui no fundo dessa mesma tela nesse exato momento, cada um com um livro inédito em processo de edição, como parece que passei cada dia desses quase 20 anos de atividade editorial. Posso dizer que é difícil trabalhar com livros, mas fico feliz de ter conseguido construir minha própria editora como uma casa aberta aos autores brasileiros, e vê-la hoje tão cheia de gente talentosa.

SC - Além de editor, você é escritor. Foi um precursor do chamado miniconto entre nós. Acha que conseguirá levar as duas coisas? Temos outros exemplos de editores que são também escritores.
JVC – Atualmente, o tempo da escrita parece cada vez mais raro, especialmente nessa fase de implementação dos livros em formato digital, que exige novos saberes, investigações e investimentos. Procuro não deixar de lado a leitura dos autores mais diversos – além da literatura, gosto de obras científicas, especialmente nos campos da matemática, biologia e história – para que as ideias continuem fluindo. Um dia a coisa explode e algum dos projetos literários toma forma. Ou não. Espero que sim, tenho muito material bruto espalhado em arquivos e cadernos, algumas ideias recorrentes e alguns projetos em andamento. Pelo menos não tenho dificuldade para encontrar uma editora!

SC - A 7 Letras está lançando uma revista importante, a Lado 7. Antes, você tinha a Ficções. Diga alguma coisa sobre o projeto da nova revista.
JVC - A revista Lado7 marca a entrada da editora no mundo dos formatos digitais. Além de contos, poemas e ensaios, a revista pretende ampliar o diálogo e a interação entre os diversos gêneros, convidando artistas plásticos e quadrinistas e também utilizando os recursos de sons e imagens que estão se aprimorando com as novas mídias. O mais importante é criar e expandir um campo de experimentação, aberto a descobertas – tanto de novos autores e obras quanto de novos processos editoriais.
SC - Como é que a 7 Letras se posiciona diante da chegada do livro digital? O que você pretende fazer, com sua editora, com relação a isso?
JVC - Estamos ainda engatinhando, como a própria indústria do livro. A intenção da editora é seguir com as ideias plantadas no projeto “Lado7” (e resumidas no conceito da revista), e utilizar de maneira criativa todo o repertório de recursos que ajudem a multiplicar as experiências da leitura para o maior número possível de leitores. Vejo o livro digital como um suporte a mais, um complemento para a experiência (insubstituível) da leitura em papel, e que precisa ser explorado como um terreno ainda desconhecido, com muita coisa ainda a ser descoberta e aprimorada.